Congresso da ABRAJI complementa semana de palestras da Folha

1 ago
Foto de Mariana Queen

Danilo Bueno, 24, participante do treinamento da Folha no Congresso da Abraji

Por Clara Roman e Mariana Queen-2º ano ECA-USP/ foto: Mariana Queen

A turma do segundo semestre do Treinamento de Jornalismo Diário da Folha de S.Paulo também esteve no Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da ABRAJI. Desde a primeira edição do evento, a participação dos pré-trainees nas palestras faz parte das atividades da semana de treinamento do jornal.

Na opinião da editora de Treinamento da Folha, Ana Estela de Sousa Pinto, o congresso da Abraji é muito importante para a formação de jornalistas do país. “É o mais completo e reúne alguns dos melhores e mais experientes jornalistas brasileiros e estrangeiros”.

Segundo ela, o Congresso foi uma excelente chance para ampliar as oportunidades de aprendizado dos candidatos. Uma das linhas do treinamento da Folha é ter contato com jornalistas experientes, conhecer suas técnicas e aprender suas ferramentas de apuração.

“Acho que a ideia é que a Semana de treinamento não seja só de seleção, mas também de aprendizagem”, diz Danilo Bueno, estudante de jornalismo da ECA-USP e um dos concorrentes à vaga na Folha. Para Ana Estela, é importante que exista um contato com colegas de todos os lugares do Brasil. De fato, segundo Danilo, os candidatos se conheceram melhor durante o evento. “É legal se integrar com os outros. Tem candidato que vem desde Recife até o Rio Grande do Sul.”

Depois do Congresso, os candidatos escreverão um texto sobre as palestras assistidas. “Mas isso é mais para que reflitam sobre a experiência do que para avaliá-los. O objetivo principal é que eles aproveitem as mesas e os cursos”, diz Ana Estela.

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

Cobertura recheada

1 ago

Por Mariana Queen e Clara Roman (2º ano ECA-USP) / fotos: Mariana Queen

Repórteres do futuro entrevistam Lowell Bergman

Repórteres do futuro entrevistam Lowell Bergman

Três dias de palestras, cerca de 60 textos publicados,  53 palestras e 2 cursos cobertos. Ao todo, 28 horas de trabalho alimentaram o blog (congressoabraji2010.wordpress.com/), o Twitter (twitter.com/congressoabraji) e o Flickr (www.flickr.com/photos/27051993@N05/). Numa parceria entre a Abraji e a  Oboré (empresa de comunicação popular), alunos de jornalismo participantes do Projeto Repórter do Futuro (reporterdofuturo.wordpress.com) ficaram encarregados da cobertura do maior evento de jornalismo investigativo do Brasil.

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da ABRAJI foi muito elogiado tanto por jornalistas de renome quanto por jovens que ainda estão no começo da carreira. Os estudantes que cobriram o encontro tiveram de mostrar agilidade e profissionalismo para produzir textos consistentes e informativos.  Depois das palestras, conversas com os conferencistas renderam boas entrevistas em vídeo que serão divulgadas neste blog depois de editadas.

A professora do Centro Universitário Metodista IPA e da Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos) e diretora da Abraji Luciana Kraemer ficou responsável pela coordenação da cobertura do evento. Ela e o gerente-executivo da associação, Guilherme Alpendre, orientaram a equipe junto com Germano Assad e Leandro Melito, assistentes de coordenação. “A experiência foi recompensadora. Apesar do prazo apertado, foi feito um bom trabalho”, diz Germano.

Fernando Rodrigues e Luciana Kremer se despedem da equipe

Para que a cobertura fosse possível, os jovens jornalistas tiveram à disposição Universidade Anhembi Morumbi, onde aconteceu o evento. Durante o trabalho, o laboratório de informática ficou muito parecido com uma movimentada redação e deu sustento para a produção de textos, twittes e descarga das fotos tiradas pelos participantes.

A ABRAJI disponiblizou uma câmera fotográfica para os repórteres do futuro, que também usaram seus próprios equipamentos para as captações. “Conseguimos fazer as matérias, a organização foi boa e contamos com o apoio dos palestrantes, muito solícitos nas abordagens”, conta Ana Krepp, aluna de jornalismo do Mackenzie e participante do projeto Repórter do Futuro.

“Vocês fazem parte da história do jornalismo atual. Quem quiser ler sobre ela, vai ter que ler o que vocês escreveram durante o Congresso”, disse o jornalista Fernando Rodrigues, presidente da Abraji, ao se despedir da equipe e agradecer  o empenho de todos.

Agradecimentos: Fernando Rodrigues, Luciana Kraemer, Guilherme Alpendre e Veridiana Sedeh.

Expediente: Germano Assad, Leandro Melito, assistentes de coordenação. Repórteres: Ana Krepp, Alexandre Dall’Ara, Anelize Moreira, Clara Roman, Danielle Denny, Eduardo Nascimento, Juliana Maximiano Torres, Lucas Rodrigues, Mariana Queen, Marjorie Niele, Mayara Baggio, Mauricio Hermann, Patrícia Ogando, Rafael  Aloi Pascoal, Rafael Ciscati, Raísa Pascoal,  Rafael Carneiro da Cunha, Rafael Belago, Thiago Fuzihara Crepaldi e Wilheim Rodrigues.

O desafio de escrever bem

31 jul

Texto: Rafael Ciscati (2˚ ano – ECA-USP)

Um dos fundadores da revista Veja, Paulo Totti ainda lembra que a redação comandada por Mino Carta costumava ter um dos melhores textos da imprensa brasileira. Ao ver um repórter batendo à maquina, se Mino não percebesse papel espalhado pelo chão, a receita era sempre a mesma: “Reescreva”. Veterano, Totti ainda concorda: “Dificilmente você vai ter a sorte de acertar de primeira”.  Boa leitura, esforço e uma pitada de talento, diz ele, são essenciais para aquele jornalista que quer escrever bem. Mas nada, em absoluto, substitui o fator mais importante para uma boa reportagem: a apuração cuidadosa – “Nem o melhor texto esconde uma apuração capenga”, sentencia.

Para Totti, jornalista é aquele capaz de democratizar a informação. Isso, muitas vezes, significa traduzir em termos simples idéias complexas.  É só então que o repórter mostra saber sobre o que está escrevendo. E só assim será capaz de compor algo atraente ao leitor: “Você não precisa mais se preocupar em saber se tem acento em joia ou tipoia, tem um programa que faz isso por você”. A preocupação deve estar em ser claro, e atentar para detalhes.

Um cinzeiro à porta de um hotel

Os 55 anos de experiência de Totti lhe ensinaram a importância dos detalhes. E foi ao sair para fumar, à porta de um hotel na China, que ele descobriu como iniciaria sua série de reportagens sobre o país.  Viu um cinzeiro com traços delicados, traduzindo toda a paciência oriental, mas produzido industrialmente.  O detalhe não era gratuito e, nas mãos de Paulo, serviu para explicar os rumos da China atual. O mesmo vale para qualquer matéria. É importante ser bom observador, para não ater-se a declarações: “Não basta dizer que os moradores da favela Pantanal ficaram 23 dias embaixo de água. Você tem de dizer como era a vida dessas pessoas”, ensina. Isso envolve o leitor e confere credibilidade ao jornalista, que realmente “esteve lá”. Mas o detalhe não pode ser supérfluo.

Outra coisa a ser feita é não tratar o leitor como tolo. É verdade que o texto tem de explicar aquilo de que trata, mas não deve nivelar por baixo. É desnecessário explicar termos técnicos repetidas vezes em uma mesma reportagem. E, dependendo de para quem você escreve, termos conhecidos (como Selic,por exemplo) sequer precisam ser explicados. Além disso, a importância do detalhe não pode suplantar a importância da seleção – bom jornalista é aquele que sabe hierarquizar o que apurou, em vez de publicar tudo.

Redações cada vez menores, diversas pautas para cobrir em um único dia, a reportagem brigando com o espaço para publicidade – tudo isso parece opor-se aos preceitos de Totti, para quem um bom texto, inevitavelmente, será mais longo.  Mas ele acredita que o jornalista, apesar das dificuldades, deve ser insistente: “Faz parte da nossa profissão”, define.

Recém saído da palestra de Ricardo Noblat, sobre jornalismo online, Paulo diz sentir-se desconfortável com essa história de que o jornal impresso tem os dias contados: “Grande parte de vocês deve estar convencida de que agora é só internet. Mas eu ainda sou apaixonado pelo jornalismo impresso”. Lembra que a televisão não matou o cinema, o CD não acabou com o vinil, e acredita que a internet não vai pôr fim ao jornal: “Me recuso a pensar que a catedral da internet será construída sobre o túmulo do jornalismo impresso”. A julgar pelo grande número de pessoas que pararam para ouvi-lo, uma coisa é certa – qualquer que seja a plataforma, no impresso ou na internet, escrever bem continuará sendo um desafio necessário.

Na estante

Totti aproveita para fazer sua lista de títulos imprescindíveis:

– Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre. “Para conhecer o Brasil”

– Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda. “Escreve com leveza e cuidado”

– Formação Econômica do Brasil – Celso Furtado. “Esquecido, porém essencial”

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Como melhorar o texto jornalístico

Paulo Totti – paulo.totti@valor.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

Ausência do Estado contribui para violência na Amazônia

31 jul

Texto : Marjorie Niele  (2˚ ano – Faculdades Integradas Rio Branco)

Durante a palestra “Investigação do crime organizado na Amazônia e nas fronteiras do Norte do país”, o jornalista Jonas Campos, da TV Centro América, falou sobre violência e impunidade na Amazônia. Segundo Campos, essas práticas estão associadas à grilagem de terras e ao desmatamento ilegal da floresta amazônica e revelam a ausência do Estado na região.

Há 30 anos, o Estado do Pará é marcado por lutas de posse de terra e execuções de pessoas supostamente consideradas um obstáculo para os interesses de fazendeiros, interessados na expansão de criação de gados ou exploração ilegal de madeira, por exemplo. Em geral, as vítimas lutavam pelos direitos de seus associados ou seguidores. “Se não tiver Ministério Público bancando a denúncia, não dá para arriscar a vida”, disse Campos, que investigou o crime organizado no Norte do país.

Parte da exploração madeireira no Pará está atrelada ao crime organizado. Isso ocorre em grande parte pela ausência do Estado. De acordo com Roberto Paiva, o madeireiro muitas vezes faz a função de um prefeito, constrói estradas, distribui cestas básicas e oferece emprego à população.

“Há muitos artistas engajados em defender a floresta amazônica. Porém, antes de olhar para a floresta, é preciso olhar o povo. Imagina a vida social dessas pessoas que vivem no Pará, à margem da pobreza, eles não têm a quem recorrer”, disse Paiva, repórter da TV Globo.

Campos citou o exemplo do assassinato da Irmã Dorothy Stang, missionária americana naturalizada brasileira, que vivia em Anapu, no Estado do Pará. Segundo ele, o episódio foi mais um capítulo da história de violência, grilagem de terras, trabalho escravo e destruição que assolam a Amazônia. O jornalista contou que a missionária pediu socorro para entidades estaduais e federais, mas não recebeu atenção por suas denúncias. Stang apresentou ao então presidente Fernando Henrique Cardoso um projeto de desenvolvimento sustentável, o que foi considerado um obstáculo para fazendeiros que queriam derrubar a floresta para expandir seus negócios. “O curioso de toda essa história é que a irmã levou a uma delegacia local os nomes das pessoas que a ameaçavam, nomes dos fazendeiros e pistoleiros. Mas a polícia civil do Pará não agiu, não chamou estas pessoas nem para um depoimento”, afirmou Campos.

Segundo Paiva, as autoridades não costumam dar atenção para a questão vida, porque se trata de pessoas humildes e pouco esclarecidas. Para o jornalista, essas pessoas são os verdadeiros protetores da floresta, junto com os índios. Ele afirma que se hoje a floresta Amazônica continua de pé é graças a reservas indígenas.

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Investigação do crime organizado na Amazônia e nas fronteiras do norte do país

Jonas Campos – jonascampos@uol.com.br

Roberto Paiva – roberto.paiva@tvglobo.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.


Notas frias na Assembleia de Minas

31 jul

Texto: Alexandre Dall’Ara (2˚ ano – ECA-USP)

“Quero as mesmas condições do deputado”. Assim o repórter Thiago Herdy, do “Estado de Minas”, abordava as empresas que prestavam serviço para a Assembleia do Estado. Sempre se identificando como assessor parlamentar, com gravação de áudio escondida, Thiago buscava uma prova que confirmasse os indícios de corrupção apontados pelas notas de reembolso da verba indenizatória dos parlamentares.

Em 2001, com o escândalo dos supersalários, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais instituiu novas regras. Os salários foram diminuídos e foi criada uma cota de indenização para gastos dos deputados. Essas indenizações podem chegar a R$ 20 mil por mês, entre dez grupos de despesas, que vão de combustíveis até equipamento para escritório. Além disso, o valor é acumulativo, ou seja, o que não foi usado em um mês, pode ser usado em outro, contanto que no mesmo ano. Isso faz com que em alguns messes as indenizações ultrapassem os 20 mil estipulados.

As notas, que devem ser apresentadas para o parlamentar receber o reembolso, são todas divulgadas no site da assembléia com número de série, CNPJ da empresa, data da compra etc. A partir dessas informações, o repórter criou um banco de dados, com as notas de julho do ano passado até janeiro desse ano. Durante esses messes ele montou uma planilha com todos os dados repassados pela Assembleia.

Munido dos dados, compilados com a ajuda das colegas Alessandra Mello e Amanda Almeida, Thiago começou a identificar as empresas suspeitas, seja por emitirem notas seriadas, por serem as maiores fornecedoras, ou por terem emitido as notas de maior valor. A equipe passou então a apurar informações sobre essas empresas.

Com mais de R$ 680 mil em serviços prestados – quase 8% de todo o valor pago em indenizações – a Máxima Comércio Ltda. foi a empresa que mais chamou a atenção. Empresa da área gráfica, ela prestou serviço para treze deputados e emitiu 44 notas que pertenciam a séries numeradas. Mas isso não bastava pra a reportagem, era preciso uma informação mais consistente que demonstrasse alguma irregularidade. O repórter não conseguiu informações relevantes ao visitar o local passando-se por assessor parlamentar. “O Washington [dono da empresa] era muito esperto, ele logo percebeu o que eu era jornalista”. Entretanto, sabendo que a empresa terceirizava o custo de produção, Thiago conseguiu, com a gráfica que imprimia os serviços da Máxima para a assembléia, as notas de prestação de serviço. Elas somavam R$ 124 mil, ou seja, havia um lucro de 82% para a Máxima Comércio Ltda., o que claramente indicava superfaturamento.

Além desse caso, a equipe de repórteres achou um posto de combustível que dizia não conhecer o deputado e as notas apresentadas por ele; uma empresa de consultoria, responsável por notas no valor de R$ 67 mil, com sede no mesmo endereço do Eligê Futebol Clube; e outra gráfica, cujo dono declarou para o repórter que vendia notas aos parlamentares. Assim, as matérias criaram a série de reportagem Notas Frias S/A, publicada no Estado de Minas em Abril desse ano.

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Notas frias S/A: bastidores de uma investigação jornalística sobre a assembleia legislativa de MG

Thiago Herdy – thiagoherdy@gmail.com

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

Investigação jornalística sob pressão: de processos judiciais a risco de morte

31 jul

Texto: Clara Roman (2˚ ano – ECA-USP) / Foto: Fernando Serpone

Muitas vezes, o repórter tem que lidar com situações que o impedem o exercício da profissão livremente. Elvira Lobato e Ana Arana contam as suas experiências em relação a processos judiciais e a ameaças de morte que sofreram durante a carreira.

O caso de Elvira é recente e ligado à própria mídia. Desde a década de 90, a repórter do jornal Folha de São Paulo se especializou na cobertura de telecomunicações. A Rede Record era uma pauta constante.  Elvira realizou, nessa época, uma grande reportagem sobre empresas ligadas ao bispo Edir Macedo em paraíso fiscal. No final de 2007, ela realizou uma pauta relatando as dimensões do império construído pela igreja Universal. A matéria foi baseada em dados coletados em juntas comerciais e cartórios, com provas consolidadas.

Pouco tempo depois, Elvira começou a receber processos de tribunais de pequenas causas. Ao longo desses últimos dois anos, ela foi alvo de mais de 100 processos, de localidades distantes do país, todos de bispos da igreja Universal.  A maioria dos documentos tem o mesmo texto escrito, o que significa que houve uma coordenação central para as acusações. Os bispos reclamavam de terem recebido ofensas devido a matéria de Elvira Lobato.

Ana Arana contou um caso ocorrido quando trabalhava em um jornal nova yorquino. Ela e outra repórter mais jovem faziam uma reportagem sobre as gangues no bairro do Queens. Sua colega, por inexperiência, acabou se expondo muito durante o processo. Com o passar do tempo, Ana começou a perceber carros que a seguiam, pessoas espreitando na porta de sua casa e nas ruas. “É necessário ser paranóico, ”ela assume. Relatou suas impressões a redação, mas não foi escutada. Tentou a polícia, mas não fizeram nada. Finalmente,  quando conseguiu ajuda, informaram que a situação era bastante grave e que ela sofria risco de morte. Ela teve que mudar de emprego e cidade.

Outra situação que Ana comentou é o perigo constante que jornalistas mexicanos tem passado devido o forte controle que os cartéis exercem na região. O quadro está cada vez pior, com a expansão do crime organizado. A maior parte dos jornalistas opta por não falar mais do tráfico, apenas assuntos com menos implicações. O problema, segundo ela, é que o tráfico está infiltrado em todas instâncias, inclusive na própria imprensa.

As duas constataram a dificuldade de lidar com essas agressões. Elvira, por exemplo, foi pauta de uma série de reportagens da Record, colocando-a como inimiga dos fiéis da Universal. Ela, que até então nunca sofrera um processo, sentiu-se completamente vulnerável, pois as ações que recebera foram feitas por má fé. Mesmo com todo cuidado na publicação, ela ficou sujeita a grave exposição e acusações.

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Investigação jornalística sob pressão: de processos judiciais a risco de morte

Ana Arana

Elvira Lobato – elvira.lobato@grupofolha.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

A difícil tarefa de cobrir o mundo

31 jul

Texto: Eduardo S. Nascimento e Wilheim Rodrigues (2˚ ano – ECA-USP)/ Foto: Alexandre Dall’Ara

Mario Cesar Carvalho, Lowell Bergman e Gavin MacFadyen

De corrupção a segredos de guerra, a cobertura de práticas ilegais que extrapolam as fronteiras é dificultada por interesses políticos e econômicos, pois trata sempre de grandes quantias de dinheiro e personagens poderosos. A própria legislação internacional sobre alguns crimes, como o suborno, é recente e pouco aplicada. O Brasil frequentemente é palco de atos impensáveis em outros países e não costuma punir seus culpados.

Para Mario Cesar Carvalho, um dos principais entraves na investigação de crimes transnacionais é a falta de autonomia dos repórteres: “Nosso jornalismo é vergonhosamente dependente da polícia”. Tal limitação, característica de tradições provincianas, atrapalha nossa capacidade de entender o cenário internacional no qual os crimes brasileiros estão inseridos. Além disso, Mario Cesar Carvalho destacou que “a legislação brasileira é extremamente permissiva e desatualizada”.

O jornalista citou como exemplo o caso de Edemar Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos. Após descobrir que a situação financeira da empresa estava se deteriorando, o Bando Central (BC) afastou o banqueiro e nomeou Vanio César Aguiar como interventor – o que não evitou a falência do banco e um rombo de mais de R$ 1 bilhão aos seus clientes. Paradoxalmente, enquanto o banco quebrava, Edemar Cid Ferreira aumentava seus gastos impunemente:  “Aqui o BC controla o banco, mas não o banqueiro”, explica Mario Cesar.

Em sua fala, Lowell Bergman abordou principalmente o papel da corrupção no crime organizado internacional. Segundo o jornalista, até 1977 era legal, em qualquer país, subornar funcionários de governos estrangeiros para facilitar negociações: “É uma atividade que a a maioria das grandes corporações realizava”. A situação nos EUA só mudou após o escândalo de Watergate.

Na época, as empresas admitiram ter dado milhões de dólares para financiar a reeleição do presidente Nixon. A polícia descobriu que o dinheiro vinha de paraísos fiscais e tais contas eram previamente usadas para depositar dinheiro do crime organizado norte-americano. Ao investi-lo na campanha, as empresas afirmaram “estar apenas ‘repatriando’ parte do dinheiro”.

Essa lei existia apenas nos EUA até 12 anos atrás, quando a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) criou um pacto chamado “Tratado Anti-Corrupção”. A partir de então, tais países estariam compreendendo, cada vez melhor, que esse tipo de crime está desestabilizando a economia mundial: “o [presidente] Obama, os presidentes e primeiro-ministros da Europa, todos agora estão sendo extremamente rígidos com os chamados sonegadores fiscais”.

Gavin MacFadyen fala do potencial da união de empresas jornalísticas. Como afirmou Lowell, “os meios de comunicação estão começando a colaborar entre si e a produzir conteúdos juntos”, e o exemplo com maior êxito até agora foi o Wikileaks. O site é fruto da cooperação anônima entre pessoas do mundo inteiro: “Eles construíram esta rede de hackers, no mundo inteiro, que luta pela livre expressão, pela imprensa livre”.

O Wikileaks recebeu, apenas em seus primeiros 18 meses de existência, 1,4 milhão de documentos e agora a cifra já passa de 2 milhões. Em abril, foi liberado um vídeo de soldados norte-americanos executando afegãos e rindo da cena. Depois disso, alguém de dentro do Exército norte-americano enviou dezenas de milhares de documentos sobre a atuação dos EUA na guerra do Afeganistão e o governo já apresentou pedido formal para que o site pare de publicá-los.

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Crime trasnacional

Lowell Bergman

Mario Cesar Carvalhomario.carvalho@grupofolha.com.br

Fernando Rodriguesfrodriguesbsb@uol.com.br

Gavin MacFadyengavin@tcij.org

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.