Arquivo | julho, 2010

O desafio de escrever bem

31 jul

Texto: Rafael Ciscati (2˚ ano – ECA-USP)

Um dos fundadores da revista Veja, Paulo Totti ainda lembra que a redação comandada por Mino Carta costumava ter um dos melhores textos da imprensa brasileira. Ao ver um repórter batendo à maquina, se Mino não percebesse papel espalhado pelo chão, a receita era sempre a mesma: “Reescreva”. Veterano, Totti ainda concorda: “Dificilmente você vai ter a sorte de acertar de primeira”.  Boa leitura, esforço e uma pitada de talento, diz ele, são essenciais para aquele jornalista que quer escrever bem. Mas nada, em absoluto, substitui o fator mais importante para uma boa reportagem: a apuração cuidadosa – “Nem o melhor texto esconde uma apuração capenga”, sentencia.

Para Totti, jornalista é aquele capaz de democratizar a informação. Isso, muitas vezes, significa traduzir em termos simples idéias complexas.  É só então que o repórter mostra saber sobre o que está escrevendo. E só assim será capaz de compor algo atraente ao leitor: “Você não precisa mais se preocupar em saber se tem acento em joia ou tipoia, tem um programa que faz isso por você”. A preocupação deve estar em ser claro, e atentar para detalhes.

Um cinzeiro à porta de um hotel

Os 55 anos de experiência de Totti lhe ensinaram a importância dos detalhes. E foi ao sair para fumar, à porta de um hotel na China, que ele descobriu como iniciaria sua série de reportagens sobre o país.  Viu um cinzeiro com traços delicados, traduzindo toda a paciência oriental, mas produzido industrialmente.  O detalhe não era gratuito e, nas mãos de Paulo, serviu para explicar os rumos da China atual. O mesmo vale para qualquer matéria. É importante ser bom observador, para não ater-se a declarações: “Não basta dizer que os moradores da favela Pantanal ficaram 23 dias embaixo de água. Você tem de dizer como era a vida dessas pessoas”, ensina. Isso envolve o leitor e confere credibilidade ao jornalista, que realmente “esteve lá”. Mas o detalhe não pode ser supérfluo.

Outra coisa a ser feita é não tratar o leitor como tolo. É verdade que o texto tem de explicar aquilo de que trata, mas não deve nivelar por baixo. É desnecessário explicar termos técnicos repetidas vezes em uma mesma reportagem. E, dependendo de para quem você escreve, termos conhecidos (como Selic,por exemplo) sequer precisam ser explicados. Além disso, a importância do detalhe não pode suplantar a importância da seleção – bom jornalista é aquele que sabe hierarquizar o que apurou, em vez de publicar tudo.

Redações cada vez menores, diversas pautas para cobrir em um único dia, a reportagem brigando com o espaço para publicidade – tudo isso parece opor-se aos preceitos de Totti, para quem um bom texto, inevitavelmente, será mais longo.  Mas ele acredita que o jornalista, apesar das dificuldades, deve ser insistente: “Faz parte da nossa profissão”, define.

Recém saído da palestra de Ricardo Noblat, sobre jornalismo online, Paulo diz sentir-se desconfortável com essa história de que o jornal impresso tem os dias contados: “Grande parte de vocês deve estar convencida de que agora é só internet. Mas eu ainda sou apaixonado pelo jornalismo impresso”. Lembra que a televisão não matou o cinema, o CD não acabou com o vinil, e acredita que a internet não vai pôr fim ao jornal: “Me recuso a pensar que a catedral da internet será construída sobre o túmulo do jornalismo impresso”. A julgar pelo grande número de pessoas que pararam para ouvi-lo, uma coisa é certa – qualquer que seja a plataforma, no impresso ou na internet, escrever bem continuará sendo um desafio necessário.

Na estante

Totti aproveita para fazer sua lista de títulos imprescindíveis:

– Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre. “Para conhecer o Brasil”

– Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda. “Escreve com leveza e cuidado”

– Formação Econômica do Brasil – Celso Furtado. “Esquecido, porém essencial”

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Como melhorar o texto jornalístico

Paulo Totti – paulo.totti@valor.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
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Ausência do Estado contribui para violência na Amazônia

31 jul

Texto : Marjorie Niele  (2˚ ano – Faculdades Integradas Rio Branco)

Durante a palestra “Investigação do crime organizado na Amazônia e nas fronteiras do Norte do país”, o jornalista Jonas Campos, da TV Centro América, falou sobre violência e impunidade na Amazônia. Segundo Campos, essas práticas estão associadas à grilagem de terras e ao desmatamento ilegal da floresta amazônica e revelam a ausência do Estado na região.

Há 30 anos, o Estado do Pará é marcado por lutas de posse de terra e execuções de pessoas supostamente consideradas um obstáculo para os interesses de fazendeiros, interessados na expansão de criação de gados ou exploração ilegal de madeira, por exemplo. Em geral, as vítimas lutavam pelos direitos de seus associados ou seguidores. “Se não tiver Ministério Público bancando a denúncia, não dá para arriscar a vida”, disse Campos, que investigou o crime organizado no Norte do país.

Parte da exploração madeireira no Pará está atrelada ao crime organizado. Isso ocorre em grande parte pela ausência do Estado. De acordo com Roberto Paiva, o madeireiro muitas vezes faz a função de um prefeito, constrói estradas, distribui cestas básicas e oferece emprego à população.

“Há muitos artistas engajados em defender a floresta amazônica. Porém, antes de olhar para a floresta, é preciso olhar o povo. Imagina a vida social dessas pessoas que vivem no Pará, à margem da pobreza, eles não têm a quem recorrer”, disse Paiva, repórter da TV Globo.

Campos citou o exemplo do assassinato da Irmã Dorothy Stang, missionária americana naturalizada brasileira, que vivia em Anapu, no Estado do Pará. Segundo ele, o episódio foi mais um capítulo da história de violência, grilagem de terras, trabalho escravo e destruição que assolam a Amazônia. O jornalista contou que a missionária pediu socorro para entidades estaduais e federais, mas não recebeu atenção por suas denúncias. Stang apresentou ao então presidente Fernando Henrique Cardoso um projeto de desenvolvimento sustentável, o que foi considerado um obstáculo para fazendeiros que queriam derrubar a floresta para expandir seus negócios. “O curioso de toda essa história é que a irmã levou a uma delegacia local os nomes das pessoas que a ameaçavam, nomes dos fazendeiros e pistoleiros. Mas a polícia civil do Pará não agiu, não chamou estas pessoas nem para um depoimento”, afirmou Campos.

Segundo Paiva, as autoridades não costumam dar atenção para a questão vida, porque se trata de pessoas humildes e pouco esclarecidas. Para o jornalista, essas pessoas são os verdadeiros protetores da floresta, junto com os índios. Ele afirma que se hoje a floresta Amazônica continua de pé é graças a reservas indígenas.

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Investigação do crime organizado na Amazônia e nas fronteiras do norte do país

Jonas Campos – jonascampos@uol.com.br

Roberto Paiva – roberto.paiva@tvglobo.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.


Notas frias na Assembleia de Minas

31 jul

Texto: Alexandre Dall’Ara (2˚ ano – ECA-USP)

“Quero as mesmas condições do deputado”. Assim o repórter Thiago Herdy, do “Estado de Minas”, abordava as empresas que prestavam serviço para a Assembleia do Estado. Sempre se identificando como assessor parlamentar, com gravação de áudio escondida, Thiago buscava uma prova que confirmasse os indícios de corrupção apontados pelas notas de reembolso da verba indenizatória dos parlamentares.

Em 2001, com o escândalo dos supersalários, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais instituiu novas regras. Os salários foram diminuídos e foi criada uma cota de indenização para gastos dos deputados. Essas indenizações podem chegar a R$ 20 mil por mês, entre dez grupos de despesas, que vão de combustíveis até equipamento para escritório. Além disso, o valor é acumulativo, ou seja, o que não foi usado em um mês, pode ser usado em outro, contanto que no mesmo ano. Isso faz com que em alguns messes as indenizações ultrapassem os 20 mil estipulados.

As notas, que devem ser apresentadas para o parlamentar receber o reembolso, são todas divulgadas no site da assembléia com número de série, CNPJ da empresa, data da compra etc. A partir dessas informações, o repórter criou um banco de dados, com as notas de julho do ano passado até janeiro desse ano. Durante esses messes ele montou uma planilha com todos os dados repassados pela Assembleia.

Munido dos dados, compilados com a ajuda das colegas Alessandra Mello e Amanda Almeida, Thiago começou a identificar as empresas suspeitas, seja por emitirem notas seriadas, por serem as maiores fornecedoras, ou por terem emitido as notas de maior valor. A equipe passou então a apurar informações sobre essas empresas.

Com mais de R$ 680 mil em serviços prestados – quase 8% de todo o valor pago em indenizações – a Máxima Comércio Ltda. foi a empresa que mais chamou a atenção. Empresa da área gráfica, ela prestou serviço para treze deputados e emitiu 44 notas que pertenciam a séries numeradas. Mas isso não bastava pra a reportagem, era preciso uma informação mais consistente que demonstrasse alguma irregularidade. O repórter não conseguiu informações relevantes ao visitar o local passando-se por assessor parlamentar. “O Washington [dono da empresa] era muito esperto, ele logo percebeu o que eu era jornalista”. Entretanto, sabendo que a empresa terceirizava o custo de produção, Thiago conseguiu, com a gráfica que imprimia os serviços da Máxima para a assembléia, as notas de prestação de serviço. Elas somavam R$ 124 mil, ou seja, havia um lucro de 82% para a Máxima Comércio Ltda., o que claramente indicava superfaturamento.

Além desse caso, a equipe de repórteres achou um posto de combustível que dizia não conhecer o deputado e as notas apresentadas por ele; uma empresa de consultoria, responsável por notas no valor de R$ 67 mil, com sede no mesmo endereço do Eligê Futebol Clube; e outra gráfica, cujo dono declarou para o repórter que vendia notas aos parlamentares. Assim, as matérias criaram a série de reportagem Notas Frias S/A, publicada no Estado de Minas em Abril desse ano.

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Notas frias S/A: bastidores de uma investigação jornalística sobre a assembleia legislativa de MG

Thiago Herdy – thiagoherdy@gmail.com

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Investigação jornalística sob pressão: de processos judiciais a risco de morte

31 jul

Texto: Clara Roman (2˚ ano – ECA-USP) / Foto: Fernando Serpone

Muitas vezes, o repórter tem que lidar com situações que o impedem o exercício da profissão livremente. Elvira Lobato e Ana Arana contam as suas experiências em relação a processos judiciais e a ameaças de morte que sofreram durante a carreira.

O caso de Elvira é recente e ligado à própria mídia. Desde a década de 90, a repórter do jornal Folha de São Paulo se especializou na cobertura de telecomunicações. A Rede Record era uma pauta constante.  Elvira realizou, nessa época, uma grande reportagem sobre empresas ligadas ao bispo Edir Macedo em paraíso fiscal. No final de 2007, ela realizou uma pauta relatando as dimensões do império construído pela igreja Universal. A matéria foi baseada em dados coletados em juntas comerciais e cartórios, com provas consolidadas.

Pouco tempo depois, Elvira começou a receber processos de tribunais de pequenas causas. Ao longo desses últimos dois anos, ela foi alvo de mais de 100 processos, de localidades distantes do país, todos de bispos da igreja Universal.  A maioria dos documentos tem o mesmo texto escrito, o que significa que houve uma coordenação central para as acusações. Os bispos reclamavam de terem recebido ofensas devido a matéria de Elvira Lobato.

Ana Arana contou um caso ocorrido quando trabalhava em um jornal nova yorquino. Ela e outra repórter mais jovem faziam uma reportagem sobre as gangues no bairro do Queens. Sua colega, por inexperiência, acabou se expondo muito durante o processo. Com o passar do tempo, Ana começou a perceber carros que a seguiam, pessoas espreitando na porta de sua casa e nas ruas. “É necessário ser paranóico, ”ela assume. Relatou suas impressões a redação, mas não foi escutada. Tentou a polícia, mas não fizeram nada. Finalmente,  quando conseguiu ajuda, informaram que a situação era bastante grave e que ela sofria risco de morte. Ela teve que mudar de emprego e cidade.

Outra situação que Ana comentou é o perigo constante que jornalistas mexicanos tem passado devido o forte controle que os cartéis exercem na região. O quadro está cada vez pior, com a expansão do crime organizado. A maior parte dos jornalistas opta por não falar mais do tráfico, apenas assuntos com menos implicações. O problema, segundo ela, é que o tráfico está infiltrado em todas instâncias, inclusive na própria imprensa.

As duas constataram a dificuldade de lidar com essas agressões. Elvira, por exemplo, foi pauta de uma série de reportagens da Record, colocando-a como inimiga dos fiéis da Universal. Ela, que até então nunca sofrera um processo, sentiu-se completamente vulnerável, pois as ações que recebera foram feitas por má fé. Mesmo com todo cuidado na publicação, ela ficou sujeita a grave exposição e acusações.

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Investigação jornalística sob pressão: de processos judiciais a risco de morte

Ana Arana

Elvira Lobato – elvira.lobato@grupofolha.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

A difícil tarefa de cobrir o mundo

31 jul

Texto: Eduardo S. Nascimento e Wilheim Rodrigues (2˚ ano – ECA-USP)/ Foto: Alexandre Dall’Ara

Mario Cesar Carvalho, Lowell Bergman e Gavin MacFadyen

De corrupção a segredos de guerra, a cobertura de práticas ilegais que extrapolam as fronteiras é dificultada por interesses políticos e econômicos, pois trata sempre de grandes quantias de dinheiro e personagens poderosos. A própria legislação internacional sobre alguns crimes, como o suborno, é recente e pouco aplicada. O Brasil frequentemente é palco de atos impensáveis em outros países e não costuma punir seus culpados.

Para Mario Cesar Carvalho, um dos principais entraves na investigação de crimes transnacionais é a falta de autonomia dos repórteres: “Nosso jornalismo é vergonhosamente dependente da polícia”. Tal limitação, característica de tradições provincianas, atrapalha nossa capacidade de entender o cenário internacional no qual os crimes brasileiros estão inseridos. Além disso, Mario Cesar Carvalho destacou que “a legislação brasileira é extremamente permissiva e desatualizada”.

O jornalista citou como exemplo o caso de Edemar Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos. Após descobrir que a situação financeira da empresa estava se deteriorando, o Bando Central (BC) afastou o banqueiro e nomeou Vanio César Aguiar como interventor – o que não evitou a falência do banco e um rombo de mais de R$ 1 bilhão aos seus clientes. Paradoxalmente, enquanto o banco quebrava, Edemar Cid Ferreira aumentava seus gastos impunemente:  “Aqui o BC controla o banco, mas não o banqueiro”, explica Mario Cesar.

Em sua fala, Lowell Bergman abordou principalmente o papel da corrupção no crime organizado internacional. Segundo o jornalista, até 1977 era legal, em qualquer país, subornar funcionários de governos estrangeiros para facilitar negociações: “É uma atividade que a a maioria das grandes corporações realizava”. A situação nos EUA só mudou após o escândalo de Watergate.

Na época, as empresas admitiram ter dado milhões de dólares para financiar a reeleição do presidente Nixon. A polícia descobriu que o dinheiro vinha de paraísos fiscais e tais contas eram previamente usadas para depositar dinheiro do crime organizado norte-americano. Ao investi-lo na campanha, as empresas afirmaram “estar apenas ‘repatriando’ parte do dinheiro”.

Essa lei existia apenas nos EUA até 12 anos atrás, quando a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) criou um pacto chamado “Tratado Anti-Corrupção”. A partir de então, tais países estariam compreendendo, cada vez melhor, que esse tipo de crime está desestabilizando a economia mundial: “o [presidente] Obama, os presidentes e primeiro-ministros da Europa, todos agora estão sendo extremamente rígidos com os chamados sonegadores fiscais”.

Gavin MacFadyen fala do potencial da união de empresas jornalísticas. Como afirmou Lowell, “os meios de comunicação estão começando a colaborar entre si e a produzir conteúdos juntos”, e o exemplo com maior êxito até agora foi o Wikileaks. O site é fruto da cooperação anônima entre pessoas do mundo inteiro: “Eles construíram esta rede de hackers, no mundo inteiro, que luta pela livre expressão, pela imprensa livre”.

O Wikileaks recebeu, apenas em seus primeiros 18 meses de existência, 1,4 milhão de documentos e agora a cifra já passa de 2 milhões. Em abril, foi liberado um vídeo de soldados norte-americanos executando afegãos e rindo da cena. Depois disso, alguém de dentro do Exército norte-americano enviou dezenas de milhares de documentos sobre a atuação dos EUA na guerra do Afeganistão e o governo já apresentou pedido formal para que o site pare de publicá-los.

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Crime trasnacional

Lowell Bergman

Mario Cesar Carvalhomario.carvalho@grupofolha.com.br

Fernando Rodriguesfrodriguesbsb@uol.com.br

Gavin MacFadyengavin@tcij.org

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Jornalismo (in)discreto

31 jul

Texto: Lucas Rodrigues (2˚ ano – ECA-USP)

A discussão em torno da utilização de equipamentos como gravadores e câmeras escondidas, e o uso de falsa identidade por parte dos jornalistas, foram os temas da palestra “Métodos heterodoxos de apuração – infiltração e câmera escondida”. No debate, os jornalistas Eduardo Faustini , Luciana Kraemer e Tyndaro Menezes contaram um pouco de suas experiências e levantaram as principais questões sobre o assunto.

A apresentação de Luciana foi voltada para abordagem ética do emprego desses recursos. Segundo uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, a maioria das pessoas aprovam as reportagens investigativas, mas não é a favor de infiltração, câmeras escondidas, pagamento de informantes e fontes não identificadas. Para Luciana, o profissional que realiza esse trabalho, ou “é visto de maneira glamourosa, ou é muito criticado”.

A jornalista contou, ainda, que não é de hoje que essas técnicas são utilizadas. “Essa forma de se fazer jornalismo tem 125 anos”. Explicou, porém, que a diferença entre a época de William Thomas Stead, repórter que chegou a “comprar” uma jovem para denunciar um esquema de prostituição infantil, e a nossa era de equipamentos avançados, é apenas em relação à tecnologia.

Para ilustrar alguns conceitos sobre ética jornalística, Luciana apontou a teoria de dois profissionais da área. Caio Túlio Costa acredita que os jornalistas têm uma moral provisória, adaptada para cada situação, ao contrário da antiga definição de Cláudio Abramo, para quem os jornalistas devem ter a ética de qualquer cidadão; já Eugênio Bucci defende a ideia de que os repórteres seguem duas linhas de conduta: a utilitária, em que se pesam os benefícios e prejuízos a partir de determinadas ações, e a deontológica, que, baseada no imperativo categórico kantiano, analisa os fins de cada decisão.  Segundo Luciana, na maioria dos casos “a saída clássica para esses dilemas é o famoso ‘depende’”.

Na prática

Eduardo Faustini e Tyndaro Menezes, ambos jornalistas da TV Globo, defendem a utilização dessas práticas no jornalismo. Para Faustini, o telejornalismo é dependente da imagem, do áudio e do vídeo. “Televisão é visual”, disse. Enfatizou, entretanto, que mesmo assim, o uso desses métodos deve ser feito de modo responsável e com um objetivo, pois uma reportagem pode, mesmo que momentaneamente, melhorar uma situação. “A diferença do jornalismo investigativo é que investigamos para informar”, afirmou.

Faustini contou, também, o caso em que gravou clandestinamente dentro de uma base aérea na Bahia, para mostrar a destruição de alguns documentos sobre presos políticos da ditadura militar. Nesse episódio, optou por utilizar o tão controverso procedimento, mesmo com os incômodos da baixa resolução da imagem e dos possíveis processos que poderia receber, mas tudo em função do interesse público do fato. Para isso, atentou que é preciso avaliar a “necessidade de usar o equipamento no momento certo”.

De acordo com Tyndaro Menezes, no jornalismo você raramente está no acontecimento. E meios como a câmera escondida permitem vivenciar esses momentos. Para ele, algumas situações demandam o uso dessas técnicas, pois, de outra forma, seriam histórias impossíveis de se contar. Disse, porém, que a utilização de microcâmeras, por exemplo, deve ser o último recurso de qualquer reportagem.

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Métodos heterodoxos de apuração – infiltração e câmera escondida

Eduardo Faustini faustini@tvglobo.com.br

Tyndaro Menezes tyndaro@tvglobo.com.br

Luciana Kraemerlukraemer@terra.com.br

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Mudanças no jornalismo para as mudanças climáticas

31 jul

Texto: Rafael Aloi Paschoal (2˚ ano – ECA-USP)

Poucos jornalistas, no Brasil, cobrem a questão das mudanças climáticas, aponta Claudio Angelo, da Folha de S. Paulo. O tema só passou a crescer no país a partir do Protocolo de Kyoto, e dos acontecimentos subsequentes, como o furacão Katrina em 2005, o filme “Uma verdade inconveniente” em 2006, e os relatórios do IPCC em 2007. Ainda segundo Claudio, a área é árida e como a literatura existente sobre a questão climática é basicamente estrangeira, a língua acaba se tornando um obstáculo para alguns profissionais: “Eu que trabalho com isso há 10 anos, só entendo 8% do que leio”.

Fora do Brasil, a questão climática tem um destaque maior. No Reino Unido, o assunto entrou na agenda dos jornais. Porém alguns acontecimentos fizeram com que o público e a imprensa se tornassem mais céticos em relação ao aquecimento global. No fim do ano passado, um hacker roubou e-mails de um grupo de climatologistas britânicos e, a partir disso, eles passaram a ser acusados de distorção de dados e de cometer fraudes a fim de tornar o aquecimento global mais real. O IPCC também relatou três erros nos seus relatórios, em relação ao degelo do Himalaia, o nível do mar na Holanda e das secas na Amazônia. Começou-se assim a teoria da conspiração ambientalista.

“Os jornalistas embarcaram na conspiração de que o aquecimento global é uma fraude, os escândalos dão as maiores notícias. Mas, enquanto isso, todos os dados mostram que as temperaturas continuam subindo”, afirma Claudio Angelo.  O jornalista também explica que o lobby da energia suja tenta criar uma contracorrente ambiental, transformando a certeza das mudanças climáticas em dúvida. E enquanto isso, os jornais não gostam de usar incertezas, o “pode”. O que eles preferem noticiar são os cenários apocalípticos que o público nunca vê ocorrer.

A repórter do Valor Econômico especializada em cobertura do meio ambiente, Daniela Chiaretti, disse que as Conferências da ONU sobre Mudanças climáticas, as COP, não são de grande interesse de cobertura por muitos veículos. “São difíceis de cobrir e muitas vezes não dão matéria, apesar de serem o maior fórum democrático para discutir o clima no mundo”, diz a jornalista. O encontro de 2009 em Copenhagen só recebeu grande destaque por se acreditar que grandes decisões seriam tomadas, mas na verdade se apresentou um fracasso total.

A situação que Daniela encontra nessas reuniões é o eterno embate entre os países ricos do Norte, que querem medidas ambientais, e os países pobres do Sul, que não querem prejudicar seu desenvolvimento. Em Copenhagen, a repórter se deparou com uma cena que expressa muito bem essa questão. Em uma coletiva com mais de 80 jornalistas, os representantes da Alemanha e da Índia começaram a discutir publicamente, “foi muito fácil perceber os dois lados que se opõem nesses encontros”.

Daniela expôs as expectativas para a Conferência de Cancun, no final de 2010: “ninguém espera que seja assinado um acordo climático entre todos os países; é possível que saiam pequenos pacotes, talvez alguma solução para Kyoto”. Já existe um texto de 24 páginas sobre um acordo mundial, mas enquanto capítulos que discutem temas como Floresta e Tecnologia estão praticamente fechados, os que entram em assuntos como Emissões de Carbono são esquecidos. A repórter ainda alerta: “Durante essas conferências, cada país quer defender o seu, é preciso sempre desconfiar do que você ouve, e prestar atenção às fontes que repassam certas informações”.

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Como entender – e explicar – as mudanças climáticas

Claudio Angelo claudio.angelo@grupofolha.com.br

Daniela Chiaretti

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.