Cobrir o local é mostrar a vida real

30 jul

Texto: Rafael Balago e Rafael Ciscati (2˚ ano – ECA-USP) – Foto: Divulgação

Palestrante Evandro Spinelli

Palestrante Evandro Spinelli

Todos os meses, o governo publica o perfil das finanças municipais. Segundo esses dados, algo como 84% dos municípios brasileiros não arrecada o suficiente para sobreviver, tendo de manter-se à custa de repasses dos estados ou da União. “Não há produção nenhuma ali, não se pode esperar muito desses lugares”, aponta Claudio Abramo.  Ainda assim, segundo dados da Associação Nacional de Jornais, existem cerca de 820 publicações em circulação no país, mesmo nesses municípios mais pobres. Sem atividade econômica tributável não há publicidade. Para tais jornais, a prefeitura é o maior anunciante. Fica a pergunta: como fiscalizar quem paga suas contas? As dificuldades da cobertura local, em cidades grandes ou pequenas, foram alvo de Cláudio Abramo e Evandro Spinelli, na palestra Como cobrir a Política Local, promovida pela Abraji.

“Em cidades pequenas, quando dado partido está no poder, o jornal da oposição se esmera em jornalismo investigativo”, brinca Abramo. Altamente dependentes das finanças municipais, diz ele, é difícil esperar isenção de tais publicações. Isso pode ser avaliado pela presença de notícias sobre corrupção local nos diários desses municípios: segundo Abramo, o número e a penetração de notícias sobre corrupção, em São Paulo, é 151% maior que em Sergipe. “Se o leitor de São Paulo lê um parágrafo de informação, o de Sergipe lê uma letra”. Além disso, muitas dessas publicações imprimem textos vindos de agências noticiosas, geralmente da Agência Estado ou da Folha Press. Isso significa que, ainda que circulem somente em seus municípios de origem, as matérias publicadas referem-se ao eixo sul-sudeste.

Além da origem viciada das informações, Abramo mostra que a cobertura local sofre ainda o problema da descontinuidade – na imprensa brasileira, 63% das notícias referentes a assuntos municipais aparecem um dia só, para serem esquecidas no dia seguinte. “A imprensa diária brasileira tem uma cobertura que não satisfaz a necessidade de informar o público do que acontece localmente”, lamentou ele.

Evandro Spinelli, jornalista da Folha que cobre a Prefeitura paulistana,lembra que a cobertura da política local é sempre polarizada. “É um Fla-FLu. Se você fala mal do PT, é tucano. Se critica o PSDB, é petista”. Anda assim, a importância de uma boa cobertura é óbvia: “Cobrir administração pública local é mostrar a vida real”, considera Spinelli. “Você consegue mostrar onde aquele dinheiro desviado pela corrupção vai fazer falta: é a escola do seu filho que ficou com merenda pior, é a sua rua que não foi varrida como deveria”.

Evandro conta que costuma comparecer a quase todos os eventos onde estará presente o prefeito, Gilberto Kassab, mesmo que quase nunca faça reportagens sobre o acontecimento do dia. Assim, ele pode conversar com Kassab e sua equipe com tranquilidade, e saber os planos e problemas do cotidiano da administração municipal. Outras recomendações para cobrir o noticiário local, segundo Spinelli, é ler sempre o Diário Oficial, e com atenção. “Sempre tiro pautas de lá”, contou.

E para que a cobertura da política local seja bem-feita,  o repórter precisa conhecer um pouco de economia, de finanças (para entender os balanços) e de leis, especialmente a de Licitações e a de Responsabilidade Fiscal.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Cobertura da política local

Cláudio Weber Abramo – crwa@transparencia.org.br

Evandro Spinelli – evandro.spinelli@grupofolha.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.


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