Matheus Leitão conta o que não saiu na imprensa

31 jul

Texto: Thiago Fuzihara Crepaldi (4˚ ano – Cásper Líbero) / Foto: Divulgação

Matheus Leitão relatou para uma sala cheia – com as ilustres presenças dos colegas de Folha Fernando Rodrigues e Rubens Valente – o processo de apuração das suas principais reportagens de investigação: o Caso Zoghbi (para a revista Época), o Mensalão do DEM (para o portal iG), o perfil do coronel Brilhante Ustra, expoente da ditadura brasileira (também para Época), as regalias na prisão dos assassinos do índio Galdino (para o jornal Correio Braziliense). O repórter revelou aquilo que não foi veiculado, ou seja,  as histórias por trás da história, que quase sempre são mais interessantes do que os fatos em si.

O jovem jornalista, que embora tenha uma estrada não muito longa, de onze anos, iniciada no jornal Correio Braziliense, foi capaz de produzir reportagens que derrubaram figurões da política, empresários, desembargadores. Matheus parece querer minimizar o ônus que reportagens com esse grau de importância conferem aos seus autores: olhava para baixo, falava manso, pausado, com gesticulações contidas. Mas seu jeito reservado não diminuiu a atenção da platéia.

Matheus Leitão levou um ano para conseguir o vídeo que denunciava desvio de verba por contratos de informática com o governo, com participação direta do ex- governador de Brasília, José Roberto Arruda. Das oito pessoas que tiveram acesso à gravação, Matheus conversou com seis. “Eu sabia da existência desse vídeo um ano antes de a Polícia Federal iniciar a investigação. Essas pessoas me contaram em detalhes o que tinha no vídeo, mas eu ainda não o tinha visto. Enquanto não tivesse posse do vídeo, não poderia publicar nada. Vídeos podem sumir. Poderia haver armação política no meio disso tudo”, disse ele. Matheus publicou a primeira reportagem referente ao escândalo no mesmo dia em que a PF deu inicio às investigações da operação Caixa de Pandora, nome dado pela própria PF. “Vídeo mostra governador Arruda recebendo suposta propina”, foi publicado no portal iG no dia 27 de novembro do ano passado. O jornalista arriscou publicar sem ter o vídeo. “Até então eu não comia direito, não dormia”, revelou.  No dia seguinte o vídeo chegou às suas mãos. Eram dois DVDs, um com gravação de trinta minutos e o outro, menor e editado. O iG publicou os vídeos no mesmo dia, o primeiro às 18h55 e o segundo às 20h11. Todos os veículos da imprensa repercutiram o escândalo. A partir daí houve um tremendo esforço de Matheus para acompanhar o escândalo, dar continuidade e agilidade na publicação. Foram três meses de dedicação exclusiva a esse caso. “Foi o primeiro político preso no exercício do mandato”, observou Fernando Rodrigues, presidente da Abraji e colega de Folha de S.Paulo de Matheus.

Bastidores de outras grandes reportagens também foram abordados. O Caso Zoghbi, feito com o jornalista Andrei Meireles para a revista Época, rendeu quatro reportagens. A investigação durou três meses e se descobriu que o então diretor de Recursos Humanos do Senado, João Carlos Zoghbi, havia aberto cinco empresas de fachada em nome da ex-babá dele, uma senhora de 83 anos, para receber propina de bancos. Essas reportagens motivaram a abertura de inquéritos policiais. “Essa senhora era isenta de imposto de renda até 2006 e, de repente, ficou milionária”, contou o jornalista. Ele e Andrei Meireles receberam uma oferta de suborno quando foram conversar com a ex-babá, que ofereceu para cada um deles uma Mercedes-Benz estimada em R$200 mil. Segundo Matheus, seu colega respondeu da seguinte maneira: “Eu sei que isso vai parecer chocante para a senhora, mas a gente não é corrupto”, provocando longos risos na platéia.

O jornalista também tratou de alguns outros casos, ainda que de maneira mais rápida, como a reportagem que fez sobre as regalias na prisão dos jovens que em 1997 atearam fogo a um índio pataxó em um ponto de ônibus de bairro nobre de Brasília, enquanto ele dormia; as dificuldades de perfilar o coronel de reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-Codi de 1970 a 1974: “Ele havia me estudado. Sabia da minha vida, da vida dos meus pais [os pais de Matheus foram presos e torturados no período da ditadura militar]. Foi um aprendizado de como abordar uma pessoa difícil”, avaliou.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Cobertura da corrupção em Brasília: Mensalão do DEM e caso Zoghbi

Matheus Leitãomatheus.leitao@grupofolha.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

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