Para uma boa reportagem, os indicadores não bastam

31 jul

Texto e foto: Thiago Fuzihara Crepaldi (4˚ ano – Cásper Líbero)

Adriana Carranca define-se como uma jornalista social. Para ela, “todo o nosso trabalho deve ser voltado para a melhoria de vida da população”. O desafio atual é o de descobrir a melhor forma de cobertura dos programas sociais. “Os indicadores das pesquisas servem para o jornalista construir a sua pauta; na apuração é essencial que ele saia da redação”, disse.

Reconheceu alguns avanços no que diz respeito à fiscalização aos políticos, como a aprovação do Ficha Limpa, que já entra em vigor para esta eleição. No entanto, ainda no tema político – o qual está designada para cobrir, no jornal O Estado de S. Paulo –, criticou a falta de compromisso dos candidatos com suas campanhas: “A marca do mandato de Marta [Suplicy] como prefeita [de São Paulo] foi o CEU, sendo que essa proposta não apareceu em seu plano de governo. Ninguém estava preocupado com o plano de governo, nem os políticos e nem os cidadãos. Isso está se modificando. É a criação de uma nova cultura política – ainda que esteja no âmbito da fofoca política”.

Cobrou das universidades públicas uma participação maior na vida da população: “O mestrado ou doutorado de um aluno da USP é pago pela população de todo o estado. A Academia tem que retornar esse trabalho que foi feito; não podem ficar restritos às universidades, como se fossem um trabalho de inteligência”.

Entrando mais nas questões de programas sociais, ela disse que o jornalista que se dedica a esse tema precisa duvidar sempre dos números e dos especialistas. “Nunca há consenso na aprovação de um programa social. Sempre terá alguém que o acha ruim; outro que o acha mais ou menos e um outro que o acha muito bom. Além da divergência de opiniões, há também muitos indicadores que mascaram, que enganam, que contrapõem, que contradizem. Os números enganam bastante; são passíveis de várias interpretações.”

Para ilustrar, a jornalista deu um exemplo: um município com 100% das crianças em idade escolar matriculadas pode esconder uma realidade cruel. Uma alta mortalidade infantil somada com um bom secretário de Educação chegam a esse resultado. Ou seja, as crianças só estudam porque parte delas não chegou até a idade de se matricular –  morreu antes.

Sobre a reportagem “Dois Brasis”, que lhe conferiu o Prêmio Estado de Jornalismo em 2003, mostrando o abismo social entre a melhor e a pior cidade do país, tendo como base o índice de desenvolvimento humano, ela revelou uma curiosa observação: “A diferença na expectativa de vida da cidade mais rica para a mais pobre era de vinte e quatro anos. Na cidade mais pobre não havia velhinhos. Não tinha uma pessoa com cabelos brancos; todos morriam antes de chegar nesse estágio da vida”.

Adriana Carranca mantém um blog no Estadao.com, sobre direitos humanos.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Como fiscalizar programas sociais

Adriana Carranca adriana.carranca@grupoestado.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
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