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Publicar ou não publicar, eis a questão

30 jul

Texto: Thiago Fuzihara Crepaldi (4˚ ano – Cásper Líbero) / Foto: Germano Assad

A advogada Taís Gasparian

A advogada Taís Gasparian

O colunista da Folha José Simão pode debochar do papel de Juliana Paes em uma novela das nove e especular sobre o tamanho do traseiro da atriz? É correto o jornal New York Times dar um espaço para que seu correspondente no Brasil especule sobre as inclinações do presidente Lula para o álcool?  O Le Monte (jornal francês de sátiras, em contraposição ao sério e respeitado Le Monde) tem a liberdade para realizar montagens que denigram a imagem do presidente Nicolas Sarkozy?

São casos recentes que geraram repercussão no mundo todo. Fomentaram discussão na mídia e culminaram em processos das partes envolvidas. A mesa “Processos contra jornalistas depois do fim da Lei de Imprensa”  procurou dar conta desses assuntos. Taís Gasparian, advogada formada pela USP em 83, que há oito anos responde judicialmente por veículos de imprensa – como o jornal Folha de São Paulo -, sustentou que a revogação da Lei de Imprensa pelo STF em abril do ano passado deixou em aberto algumas questões que precisam, urgentemente, serem melhor definidas. “O direito de resposta ficou sem regulamentação. Não há definição sobre isso. Como julgar se um restaurante que foi criticado em um guia gastronômico semana passada terá o mesmo espaço para responder às críticas na semana seguinte?”, questionou.

Os estudos de casos – inclusive alguns que passaram pelos seus cuidados – fizeram com que alguns da plateia se manifestassem. Em 2002, a revista Carta Capital publicou uma reportagem que denunciava abusos em um quartel militar. No texto, um soldado confirmava ter sofrido tortura em serviço. O problema é que o militar não foi ouvido – sua declaração saiu de um arquivo consultado pelo jornalista.  Depois que a matéria foi veiculada, o soldado decidiu processar a revista, por ter sido motivo de deboche. “Falta à imprensa se humanizar mais”, disse uma jornalista de Manaus.

Ao longo da exposição, a advogada disse ser contrária ao enquadramento da imprensa dentro de três artigos do Código Civil brasileiro, 17, 20 e 21, todos referentes à proteção da imagem, da honra, da boa fama, da respeitabilidade e da vida privada dos indivíduos. Para ela, a conduta dos jornalistas não pode ser cerceada por esses artigos. “É assustador que esses dispositivos sejam aplicados para a imprensa. Se eles são aplicados a todos os casos, então não teremos nenhuma veiculação de informação.”

Sobre direito de imagem, uma jornalista carioca contou uma experiência própria: “Fui cobrir um júri aberto, certa vez. O juiz havia me dito que eu não poderia fazer imagem do réu. Mas ele interrompeu a audiência no meio para me proibir de fotografar, dizendo que eu o estava desacatando, quando na verdade eu não estava tirando fotos somente do acusado. Expliquei a ele que estava tirando foto do tribunal como um todo, e continuei fazendo as fotos. Por fim, ainda escrevi uma carta para a Corregedoria. Nós jornalistas temos muita dúvida de até onde podemos ir”.

Por fim, Taís Gasparian deu algumas orientações para que o trabalho de um bom repórter não acabe em processo: o assunto precisa ser de interesse social ou histórico, não uma mera curiosidade; publicar apenas nomes de pessoas públicas como celebridades, lideranças políticas, sociais etc; fotos sem autorização de uso da imagem somente em locais públicos; crianças menores de doze anos ou adolescentes que cometeram algum crime só podem dar entrevistas depois de autorizados pelos responsáveis.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Processos contra jornalistas depois do fim da Lei de Imprensa

Taís Gaspariantais.gasparian@rbmdf.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
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Jornalismo (in)discreto

31 jul

Texto: Lucas Rodrigues (2˚ ano – ECA-USP)

A discussão em torno da utilização de equipamentos como gravadores e câmeras escondidas, e o uso de falsa identidade por parte dos jornalistas, foram os temas da palestra “Métodos heterodoxos de apuração – infiltração e câmera escondida”. No debate, os jornalistas Eduardo Faustini , Luciana Kraemer e Tyndaro Menezes contaram um pouco de suas experiências e levantaram as principais questões sobre o assunto.

A apresentação de Luciana foi voltada para abordagem ética do emprego desses recursos. Segundo uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, a maioria das pessoas aprovam as reportagens investigativas, mas não é a favor de infiltração, câmeras escondidas, pagamento de informantes e fontes não identificadas. Para Luciana, o profissional que realiza esse trabalho, ou “é visto de maneira glamourosa, ou é muito criticado”.

A jornalista contou, ainda, que não é de hoje que essas técnicas são utilizadas. “Essa forma de se fazer jornalismo tem 125 anos”. Explicou, porém, que a diferença entre a época de William Thomas Stead, repórter que chegou a “comprar” uma jovem para denunciar um esquema de prostituição infantil, e a nossa era de equipamentos avançados, é apenas em relação à tecnologia.

Para ilustrar alguns conceitos sobre ética jornalística, Luciana apontou a teoria de dois profissionais da área. Caio Túlio Costa acredita que os jornalistas têm uma moral provisória, adaptada para cada situação, ao contrário da antiga definição de Cláudio Abramo, para quem os jornalistas devem ter a ética de qualquer cidadão; já Eugênio Bucci defende a ideia de que os repórteres seguem duas linhas de conduta: a utilitária, em que se pesam os benefícios e prejuízos a partir de determinadas ações, e a deontológica, que, baseada no imperativo categórico kantiano, analisa os fins de cada decisão.  Segundo Luciana, na maioria dos casos “a saída clássica para esses dilemas é o famoso ‘depende’”.

Na prática

Eduardo Faustini e Tyndaro Menezes, ambos jornalistas da TV Globo, defendem a utilização dessas práticas no jornalismo. Para Faustini, o telejornalismo é dependente da imagem, do áudio e do vídeo. “Televisão é visual”, disse. Enfatizou, entretanto, que mesmo assim, o uso desses métodos deve ser feito de modo responsável e com um objetivo, pois uma reportagem pode, mesmo que momentaneamente, melhorar uma situação. “A diferença do jornalismo investigativo é que investigamos para informar”, afirmou.

Faustini contou, também, o caso em que gravou clandestinamente dentro de uma base aérea na Bahia, para mostrar a destruição de alguns documentos sobre presos políticos da ditadura militar. Nesse episódio, optou por utilizar o tão controverso procedimento, mesmo com os incômodos da baixa resolução da imagem e dos possíveis processos que poderia receber, mas tudo em função do interesse público do fato. Para isso, atentou que é preciso avaliar a “necessidade de usar o equipamento no momento certo”.

De acordo com Tyndaro Menezes, no jornalismo você raramente está no acontecimento. E meios como a câmera escondida permitem vivenciar esses momentos. Para ele, algumas situações demandam o uso dessas técnicas, pois, de outra forma, seriam histórias impossíveis de se contar. Disse, porém, que a utilização de microcâmeras, por exemplo, deve ser o último recurso de qualquer reportagem.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Métodos heterodoxos de apuração – infiltração e câmera escondida

Eduardo Faustini faustini@tvglobo.com.br

Tyndaro Menezes tyndaro@tvglobo.com.br

Luciana Kraemerlukraemer@terra.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

Maior desafio do jornalista é inventar o próprio emprego

31 jul

Texto: Danielle Denny (1º ano – Mackenzie) / Foto: Germano Assad

Jornalista Rosental Calmon Alves

Jornalista Rosental Calmon Alves

A crise de 2008 vem sendo aos poucos superada, contudo persiste uma crise estrutural. A revolução digital possibilita conectividade ubíqua e permanente, com impactos na ordem econômica, social, política e cultural. A mudança dos paradigmas da comunicação é apenas mais um desses aspectos da crise.

O impacto no modelo de negócio das mídias tradicionais é deletério. Afinal, processos revolucionários são caóticos e destrutivos. O antigo rompe mais rápido do que o novo e não é totalmente substituído, surge outra lógica. Leva um tempo para uma linguagem própria ser criada. Haja vista o exemplo do rádio que em seus primórdios era jornal falado.

Junto com as ameaças, surgem também oportunidades. A liberdade criativa é praticamente infinita. O empreendedorismo, louvável. E a oportunidade de compartilhar e participar, inédita.

Um exemplo de sucesso citado por Rosental Calmon Alves (Centro Knight para Jornalismo nas Américas) foi o nascimento de jornalismo sem fins lucrativos, como o realizado pelo jornal Texas Tribune (www.texastribune.org). Um venture capitalist em tecnologia financiou a fundação do jornal com 1 milhão de dólares e levantou mais 3 milhões entre amigos. O jornal contratou os melhores jornalistas pagando salários decentes e hoje em dia é administrado como uma empresa lucrativa. A única diferença é que o jornal não tem dono, então se sobrar recursos reinveste ou aplica. Talvez essa seja uma das possibilidades para o futuro.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Ameaças e oportunidades para o jornalismo investigativo na era digital

Rosental Calmon Alves – rosental.alves@austin.utexas.edu

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.