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Ausência do Estado contribui para violência na Amazônia

31 jul

Texto : Marjorie Niele  (2˚ ano – Faculdades Integradas Rio Branco)

Durante a palestra “Investigação do crime organizado na Amazônia e nas fronteiras do Norte do país”, o jornalista Jonas Campos, da TV Centro América, falou sobre violência e impunidade na Amazônia. Segundo Campos, essas práticas estão associadas à grilagem de terras e ao desmatamento ilegal da floresta amazônica e revelam a ausência do Estado na região.

Há 30 anos, o Estado do Pará é marcado por lutas de posse de terra e execuções de pessoas supostamente consideradas um obstáculo para os interesses de fazendeiros, interessados na expansão de criação de gados ou exploração ilegal de madeira, por exemplo. Em geral, as vítimas lutavam pelos direitos de seus associados ou seguidores. “Se não tiver Ministério Público bancando a denúncia, não dá para arriscar a vida”, disse Campos, que investigou o crime organizado no Norte do país.

Parte da exploração madeireira no Pará está atrelada ao crime organizado. Isso ocorre em grande parte pela ausência do Estado. De acordo com Roberto Paiva, o madeireiro muitas vezes faz a função de um prefeito, constrói estradas, distribui cestas básicas e oferece emprego à população.

“Há muitos artistas engajados em defender a floresta amazônica. Porém, antes de olhar para a floresta, é preciso olhar o povo. Imagina a vida social dessas pessoas que vivem no Pará, à margem da pobreza, eles não têm a quem recorrer”, disse Paiva, repórter da TV Globo.

Campos citou o exemplo do assassinato da Irmã Dorothy Stang, missionária americana naturalizada brasileira, que vivia em Anapu, no Estado do Pará. Segundo ele, o episódio foi mais um capítulo da história de violência, grilagem de terras, trabalho escravo e destruição que assolam a Amazônia. O jornalista contou que a missionária pediu socorro para entidades estaduais e federais, mas não recebeu atenção por suas denúncias. Stang apresentou ao então presidente Fernando Henrique Cardoso um projeto de desenvolvimento sustentável, o que foi considerado um obstáculo para fazendeiros que queriam derrubar a floresta para expandir seus negócios. “O curioso de toda essa história é que a irmã levou a uma delegacia local os nomes das pessoas que a ameaçavam, nomes dos fazendeiros e pistoleiros. Mas a polícia civil do Pará não agiu, não chamou estas pessoas nem para um depoimento”, afirmou Campos.

Segundo Paiva, as autoridades não costumam dar atenção para a questão vida, porque se trata de pessoas humildes e pouco esclarecidas. Para o jornalista, essas pessoas são os verdadeiros protetores da floresta, junto com os índios. Ele afirma que se hoje a floresta Amazônica continua de pé é graças a reservas indígenas.

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Investigação do crime organizado na Amazônia e nas fronteiras do norte do país

Jonas Campos – jonascampos@uol.com.br

Roberto Paiva – roberto.paiva@tvglobo.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.


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A difícil tarefa de cobrir o mundo

31 jul

Texto: Eduardo S. Nascimento e Wilheim Rodrigues (2˚ ano – ECA-USP)/ Foto: Alexandre Dall’Ara

Mario Cesar Carvalho, Lowell Bergman e Gavin MacFadyen

De corrupção a segredos de guerra, a cobertura de práticas ilegais que extrapolam as fronteiras é dificultada por interesses políticos e econômicos, pois trata sempre de grandes quantias de dinheiro e personagens poderosos. A própria legislação internacional sobre alguns crimes, como o suborno, é recente e pouco aplicada. O Brasil frequentemente é palco de atos impensáveis em outros países e não costuma punir seus culpados.

Para Mario Cesar Carvalho, um dos principais entraves na investigação de crimes transnacionais é a falta de autonomia dos repórteres: “Nosso jornalismo é vergonhosamente dependente da polícia”. Tal limitação, característica de tradições provincianas, atrapalha nossa capacidade de entender o cenário internacional no qual os crimes brasileiros estão inseridos. Além disso, Mario Cesar Carvalho destacou que “a legislação brasileira é extremamente permissiva e desatualizada”.

O jornalista citou como exemplo o caso de Edemar Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos. Após descobrir que a situação financeira da empresa estava se deteriorando, o Bando Central (BC) afastou o banqueiro e nomeou Vanio César Aguiar como interventor – o que não evitou a falência do banco e um rombo de mais de R$ 1 bilhão aos seus clientes. Paradoxalmente, enquanto o banco quebrava, Edemar Cid Ferreira aumentava seus gastos impunemente:  “Aqui o BC controla o banco, mas não o banqueiro”, explica Mario Cesar.

Em sua fala, Lowell Bergman abordou principalmente o papel da corrupção no crime organizado internacional. Segundo o jornalista, até 1977 era legal, em qualquer país, subornar funcionários de governos estrangeiros para facilitar negociações: “É uma atividade que a a maioria das grandes corporações realizava”. A situação nos EUA só mudou após o escândalo de Watergate.

Na época, as empresas admitiram ter dado milhões de dólares para financiar a reeleição do presidente Nixon. A polícia descobriu que o dinheiro vinha de paraísos fiscais e tais contas eram previamente usadas para depositar dinheiro do crime organizado norte-americano. Ao investi-lo na campanha, as empresas afirmaram “estar apenas ‘repatriando’ parte do dinheiro”.

Essa lei existia apenas nos EUA até 12 anos atrás, quando a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) criou um pacto chamado “Tratado Anti-Corrupção”. A partir de então, tais países estariam compreendendo, cada vez melhor, que esse tipo de crime está desestabilizando a economia mundial: “o [presidente] Obama, os presidentes e primeiro-ministros da Europa, todos agora estão sendo extremamente rígidos com os chamados sonegadores fiscais”.

Gavin MacFadyen fala do potencial da união de empresas jornalísticas. Como afirmou Lowell, “os meios de comunicação estão começando a colaborar entre si e a produzir conteúdos juntos”, e o exemplo com maior êxito até agora foi o Wikileaks. O site é fruto da cooperação anônima entre pessoas do mundo inteiro: “Eles construíram esta rede de hackers, no mundo inteiro, que luta pela livre expressão, pela imprensa livre”.

O Wikileaks recebeu, apenas em seus primeiros 18 meses de existência, 1,4 milhão de documentos e agora a cifra já passa de 2 milhões. Em abril, foi liberado um vídeo de soldados norte-americanos executando afegãos e rindo da cena. Depois disso, alguém de dentro do Exército norte-americano enviou dezenas de milhares de documentos sobre a atuação dos EUA na guerra do Afeganistão e o governo já apresentou pedido formal para que o site pare de publicá-los.

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Crime trasnacional

Lowell Bergman

Mario Cesar Carvalhomario.carvalho@grupofolha.com.br

Fernando Rodriguesfrodriguesbsb@uol.com.br

Gavin MacFadyengavin@tcij.org

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

“Não há país na América Latina que escape do tráfico”

31 jul

Texto: Eduardo S. Nascimento (2˚ ano ECA-USP) / Fotos: Rafael Balago e Germano Assad

Palestrantes Mauri Konig, Judith Torrea, Mabel Rehnfeldt e Gabriel Bermúdez (Rafael Balago)

Palestrantes Mauri Konig, Judith Torrea, Mabel Rehnfeldt e Gabriel Bermúdez (RBalago)

Quem afirma é Mabel Rehnfeldt, correspondente da ABC Digital no Paraguai. Além da jornalista, também falaram de sua experiência com o crime organizado Judith Torrea, espanhola que vive no México, e Gabriel Bermúdez, repórter do argentino Clarín.

Torrea cobre especificamente Ciudad Juárez, no México. A cidade é considerada a mais violenta do mundo, e a jornalista mantém um blog independente sobre as histórias que descobre no local. “Eu sou a única jornalista internacional em Ciudad Juárez”, afirma Torrea.

Palestrante Judith Torrea

Palestrante Judith Torrea (GAssad)

A região é habitada majoritariamente por operários das chamadas indústrias maquiladoras – empresas estrangeiras que buscam mão-de-obra barata no México – que ganham 40 dólares por semana. “Muitos jovens são consumidores de drogas e, para bancar este consumo, trabalham para os cartéis”, o que levou a uma grande militarização do lugar.

A repórter conta que “a partir das 21 horas as casas estão todas vazias, vira somente uma cidade com tanques militares”. No entanto, se sente o perigo por todas as partes. Antes do governo do atual presidente, Felipe Calderón, Juárez era uma cidade com muitos restaurantes, teatros, show e agora “os únicos lugares em que encontramos pessoas são os cemitérios. Se antes existia perigo só para mulheres pobres e bonitas, agora o perigo se democratizou”.

Já a experiência da jornalista paraguaia se deu na investigação sobre o contrabando internacional de cigarros em que seu país estava envolvido. Foi montada uma enorme rede de colaboração entre jornalistas na internet para a realização do projeto.

Diz Rehnfeldt que não havia cifras oficiais sobre as fábricas de cigarros e números de diferentes órgãos oficiais discordavam entre si. Os jornalistas buscaram as quantidades de tabaco e filtro que teriam de ser comprados para produzir cigarros. A descoberta foi que, se realmente não houvesse exportação como diziam as autoridades, a produção de cigarros do Paraguai seria suficiente para que todo habitante do país fumasse vários maços por dia, inclusive bebês e recém-nascidos.

Diz a repórter que “de noite o céu do Paraguai parece uma árvore de Natal”, pois o país não tem radares para rastrear os aviões do contrabando. A saída do cigarro também se dá por água, “no Rio Itaipu há mais de 300 portos clandestinos”. Para navegar o Rio, a jornalista disse ter corrido muitos riscos de morte e era sempre acompanhada por policiais de arma em punho, para eventuais ataques dos contrabandistas.

O aumento do tráfico se deu porque “é ‘mais lícito’ traficar cigarro do que drogas”, as penas em caso de apreensão são bem menores. Boa parte da mercadoria contrabandeada tinha como destino o Brasil e jornalistas brasileiros também contribuíram para a realização da matéria, no entanto nada foi publicado aqui sobre o assunto, enquanto no Paraguai os resultados vieram à mídia, de acordo com a palestrante.

Gabriel Bermúdez conta que a Argentina também sofre com o tráfico de drogas. Mas lembra que em seu país também existem, simultaneamente, as outras do que chamou “Cinco Guerras da Globalização”: o tráfico de armas, de pessoas, de dinheiro (lavagem) e a pirataria.

Para o tráfico de pessoas, “um país tanto de origem quanto de destino é o Paraguai”. Na Argentina muitas das vítimas são jovens de rua. Um caso emblemático é o de Fernanda Aguirre: sequestrada aos 13 anos em 2004, sua mãe passou a procurá-la por conta própria. Em maio deste ano, a mãe faleceu sem descobrir o paradeiro da garota. Na Argentina, a lei contra a lavagem de dinheiro tem 10 anos, mas nenhuma pessoa jamais foi condenada por esse crime.

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Crime organizado na América Latina – Brasil, Argentina, Paraguai e México

Mauri Konig – maurik@gazetadopovo.com.br

Judith Torrea – judiththat@gmail.com

Mabel Rehnfeldt – mabel@abc.com.py

Gabriel Bermúdez – bermudezgabriel66@speedy.com.ar

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
Judith Torrea cobre casos semelhantes, mas especificamente em Ciudad Juárez, no México. A cidade é considerada a mais violenta do mundo, e a jornalista mantém um blog independentesobre as histórias que descobre no local. “Eu sou a única jornalista internacional em Ciudad Juárez”, afirma Torrea.

O local é habitado majoritariamente por operários das chamadas industrias maquiladoras – empresas estrangeiras que buscam mão-de-obra barata no México – que ganham 40 dólares por semana. “Muitos jovens são consumidores de drogas e, para bancar este consumo, trabalham para os cartéis”, o que levou a uma grande militarização do lugar.

A repórter conta que “a partir das 21h as casas estão todas vazias, vira somente uma cidade com tanques militares”. No entanto, se sente o perigo por todas as partes. Antes do governo do atual presidente, Felipe Calderón, Juárez era uma cidade com muitos restaurantes, teatros, show e agora “os únicos lugares em que encontramos pessoas são os cemitérios. Se antes existia perigo para mulheres pobres e bonitas, agora o perigo se democratizou”.

Lavagem de dinheiro é crime sem vítima aparente

31 jul

Texto: Eduardo S. Nascimento (2˚ ano – ECA-USP) / Fotos: Marjorie Niele

Uma das áreas mais espinhosas do jornalismo, notícias sobre crimes financeiros não são nada fáceis de apurar. nO próprio Ministério Público Federal (MPF) tem dificuldades para encontrar culpados em casos de lavagem de dinheiro, por exemplo. Rubens Valente, repórter da Folha de S.Paulo, afirma que, para jornalistas, aos entraves se soma a atual onda de “secretismo”, uma cultura de omissão de documentos públicos como decisões processuais, nomes de réus etc.

Palestrante Rodrigo De Grandi

Palestrante Rodrigo De Grandi

Rodrigo de Grandis, procurador da República, explica que crimes de lavagem são complexos e só começaram a ser punidos em 1998 no Brasil. A lavagem sempre inclui um crime precedente, pois serve para ocultar bens e capitais obtidos de forma ilegal: “Muito dificilmente nós encontramos um caso de lavagem que não esteja acompanhado de crime organizado”. Porém, aparentemente as operações não têm características criminosas e a lavagem não tem vítima definida.

São empregados funcionários altamente qualificados para realizar a “limpeza” do capital. O esquema sofisticado é internacional – aqui entram os paraísos fiscais – e para isso existe a Associação de Cooperação Jurídica Internacional (ACJI), que estabelece um diálogo entre os sistemas jurídicos e financeiros das nações envolvidas.

Já para os crimes que não saem do Brasil, a COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) é o órgão responsável, recebendo informações de instituições financeiras, como bancos e casas de câmbio, sobre movimentações suspeitas. Por exemplo, se um banco percebe grandes depósitos de um cliente com rendas médias declaradas, passa os dados para a COAF, que informa o MPF.

Relacionamento com a imprensa

Palestrante Rubens Valente

Palestrante Rubens Valente

Para Rodrigo de Grandis, “[O MPF] só deve se manifestar à sociedade quando realizar algo concreto”. Assim, a população tem direito de saber sobre decisões de juízes, acusações formais, resultados de julgamentos, mas notícias sobre investigações ainda em curso não necessariamente devem ser publicadas, pois podem prejudicar seus resultados.

No entanto, Rubens Valente mostrou que vários documentos públicos estavam inacessíveis no site do Supremo Tribunal Federal. Conta também que já foi impedido de ver os números da prestação de contas do PMDB sobre uso de verba pública. Há casos até em que o réu queria publicar seu processo e o juiz negou o pedido. “Acho que o secretismo é a maior ameaça à liberdade de expressão e à imprensa no país”, afirma Rubens Valente.

Esteve presente na palestra a jornalista Elisabel Benozatti, principal assessora de imprensa do banqueiro Daniel Dantas.

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Lavagem de dinheiro no Brasil

Rodrigo de Grandis – rgrandis@prsp.mpf.gov.br

Rubens Valente – rubens.valente@grupofolha.com.br

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Lentidão e protecionismo da Justiça beneficiam o crime organizado no país

31 jul

Texto: Thiago Fuzihara Crepaldi (4˚ ano – Cásper Líbero) / Foto:Divulgação

Silvio de Oliveira, Procurador da República em São Paulo que se dedica ao combate de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e de lavagem de capitais, fez críticas ao sistema judicial brasileiro, que, segundo ele, precisa ser mais ágil. “Muitos crimes, pela lentidão do tribunal, acabam prescrevendo. Com a prescrição a pena de menores de 21 anos e maiores de 70 cai pela metade. Os canalhas também envelhecem”, disse, em tom de indignação. Ele também acha que deve acontecer uma filtragem maior de processos que sobem para instâncias superiores. De acordo com ele, 221 mil ações foram julgadas pelos 11 ministros do STF no ano passado. “Se eles trabalharam 10 horas por dia, isso significa que eles assinaram uma petição a cada 14 minutos. Ora, em 15 minutos não se consegue nem ler uma petição inteira”, provando que grande parte do trabalho é conduzido pelos assessores dos 11 ministros.

Rubens Valente começou sua carreira em 89, na imprensa de Campo Grande, MS, aos 19 anos, cobrindo crime de rua.

Palestrantes Rubens Valente e Silvio de Oliveira

Palestrantes Rubens Valente e Silvio de Oliveira

Interessou-se por perícia criminal. Depois dedicou-se à cobertura indígena, chegando a conhecer 35 tribos espalhadas por todo o país. Foi por eles que Valente começou a cobrir casos de corrupção. “Foi nessa época que percebi que os maiores problemas dos índios decorriam da corrupção do sistema público”. Cobriu, desde então, 15 operações da Polícia Federal, como a que resultou na CPI dos Correios, a operação Satiagraha, Anaconda e outras mais. É repórter de Brasil na Folha de S.Paulo. Ao longo dos 20 anos de experiência jornalística, Valente desenvolveu seus próprios métodos de investigação, que revelou nessa mesa do último dia de Congresso

Disse que é preciso manter vínculos com suas fontes. “Almoçar com elas, ligar para elas”. Como um jornalista tradicional, acredita que o computador deve ficar na fase final da apuração. O contato pessoal deve ser priorizado. Nesse meio ninguém é ingênuo e “se alguém revela uma informação valiosa, é bem possível que eu vá atrás e publique a história”. Contudo, ele alertou que nessa área é comum que o jornalista receba informações falsas, de concorrentes empresarias, inimigos políticos. “Dossiês fraudados são comuns. É preciso de cautela.”, contou o jornalista que uma vez por mês vai a audiências depor sobre suas investigações. Para ele não se permite muitos rodeios de linguagem, “quanto mais conciso, melhor”. “Um texto simples, não é um texto pobre. Se for preciso colocar um termo técnico, coloque-o, assim não se faz um jornalismo superficial”, sustentou.

Elogiou o espaço que os jornais têm dado à cobertura do crime organizado, mas criticou a falta de tempo para apuração, que é fundamental para uma reportagem bem feita. “O leitor também gosta desse tipo de notícia. 92% dos leitores de política querem saber das irregularidades que os políticos cometem. Cabe a nós ir atrás disso”, disse.

A dificuldade que tem enfrentado nas suas apurações é com relação ao protecionismo que o sistema judiciário tem dado a suspeitos. “Antes, os casos corriam em segredo de justiça para preservar vítimas de estupro etc.; agora, políticos corruptos, homicidas, serial killers, megaempresários são beneficiados pelo segredo. Sigilo eleitoral, para mim, é um absurdo”, desabafou.

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O Combate ao crime organizado no Brasil

Rubens Valente

Silvio de Oliveira

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

Um país fora do mapa, mas com muita influência no mundo

30 jul

Texto: Rafael Carneiro da Cunha (2˚ ano PUC-SP) / Foto: Germano Assad

Palestrantes Carlos Wagner, Mauri Konig e Graciliano Rocha

Palestrantes Graciliano Rocha, Mauri König e Carlos Wagner

“Ali [a tríplice fronteira] se tornou um país que possui as suas próprias lendas, músicas, linguajar e valores, ou seja, ganhou uma identidade cultural”. É o que afirmou o jornalista Carlos Wagner se referindo à fronteira do Brasil com Argentina e Paraguai em uma das palestras do 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, que aconteceu na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.

O repórter especial do jornal Zero Hora participou do debate “Investigação do crime organizado nas fronteiras do Sul e Centro-Oeste do país”. Estavam presentes ainda o repórter especial da Gazeta do Povo e diretor da Abraji Mauri König e Graciliano Rocha, repórter da sucursal de Porto Alegre da Folha de S.Paulo. Os três relataram suas experiências nos limites de terras brasileiras com a de outros países na América do Sul, principalmente na tríplice fronteira. Essa região é uma das maiores produtoras de maconha do mundo e um entreposto da cocaína vinda dos Andes. “Isso começou a acontecer entre as décadas de 80 e 90 e no fim dos anos 90 a região começou a ser ocupada também pelas organizações criminosas do Sudeste como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho”.

Wagner explicou o quanto é complicado trabalhar no local devido à falta de liberdade da imprensa. Imprensa essa que muitas vezes é controlada pelos contrabandistas e traficantes. Ele enfatizou que para fazer coberturas jornalísticas na região é preciso realizar um estudo muito aprofundado da área. “Eu também já passei por situações bem complicadas. Até apanhar eu apanhei, mas eu era muito ingênuo na época. Hoje digo que tem que ter paciência, sangue frio e por fim, ver o que tem que ver e cair fora”, lembra König.

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Investigação do crime organizado nas fronteiras do sul e centro-oeste do país

Mauri König – maurik@gazetadopovo.com.br

Carlos Wagner carlos.wagner@zerohora.com.br

Graciliano Rocha – graciliano.silveira@grupofolha.com.br

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Jornalistas desvendam máfia dos Diários Secretos

30 jul

Texto: Wilheim Rodrigues (2˚ ano – ECA-USP)

Informações que deveriam ser públicas, por lei, eram extremamente sigilosas e os diários oficiais do Paraná estavam inacessíveis havia mais de uma década. Era impossível saber quantos e quais funcionários compunham a Assembleia Legislativa do estado e, graças a tais segredos, criou-se uma rede de corrupção que envolveu boa parte dos parlamentares. Essa foi a realidade investigada pelos repórteres Karlos Kolbach e Kátia Brembatti, do jornal Gazeta do Povo, e também James Luiz Alberti e Gabriel Tabatcheik, da TV  Paranaense, ambas empresas do mesmo grupo comucacional.

Segundo Kátia, um dos méritos da cobertura desse escândalo que terminou com 33 pedidos de prisão foi a sua visão de todo: “A gente não queria fazer mais uma matéria sobre laranjas e trocas de favores. Queríamos desvendar o esquema completo, e não apenas acusar um ou outro deputado”.

Já para Karlos, o maior desafio foi escolher o desenrolar das investigações. O jornalista afirma que o quarteto possuía documentos capazes de comprometer agentes do Ministério Público, do Tribunal de Contas da União e até da Polícia Federal, mas não podia agir contra tantas instituições simultaneamente: “Se a gente acusasse todo o mundo, ficaria isolado. Precisávamos de fontes nessas esferas para enfrentar a pressão dos políticos”.

“Quem comprova se um ato foi ou não publicado se ninguém tem acesso aos diários?”, foi a pergunta que mais intrigou Gabriel antes de iniciar a publicação da série de denúncias.  Sempre que alguém acusava um parlamentar de ter “funcionários fantasmas”, bastava que ele forjasse um Diário Avulso (não publicado oficialmente e sem numeração) contendo dados negando tal informação. Para impedir isso, a primeira reportagem da série “Diários Secretos” explicou à população o mecanismo e denunciou seu recorrente uso no plenário.

Quando a discussão abriu espaço para perguntas, James foi questionado sobre os prováveis conflitos na interação entre o jornal e a TV na divulgação das informações. “Na verdade, criamos uma interação para divulgar as matérias simultaneamente nos dois veículos. O jornal da noite deu o furo e iniciou a série na TV. Na manhã seguinte, o impresso repercutiu a matéria e a ‘suitava’ (adicionava uma nova informação ao tema). À tarde, a televisão repercutia o impresso e, por sua vez, o ‘suitava’. Na exibição do jornal noturno, seria lançado o segundo episódio da série e o mesmo ciclo seria repetido durante a semana”, conclui o jornalista.

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Diários Secretos – investigação na assembléia legislativa do PR

Karlos Kolbachkarlosk@gazetadopovo.com.br

Kátia Brembattikatiab@gazetadopovo.com.br

James Luiz Albertijames@tvparaense.tv.br

Gabriel Tabatcheikgabrielc@tvparaense.tv.br

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