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Mudanças no jornalismo para as mudanças climáticas

31 jul

Texto: Rafael Aloi Paschoal (2˚ ano – ECA-USP)

Poucos jornalistas, no Brasil, cobrem a questão das mudanças climáticas, aponta Claudio Angelo, da Folha de S. Paulo. O tema só passou a crescer no país a partir do Protocolo de Kyoto, e dos acontecimentos subsequentes, como o furacão Katrina em 2005, o filme “Uma verdade inconveniente” em 2006, e os relatórios do IPCC em 2007. Ainda segundo Claudio, a área é árida e como a literatura existente sobre a questão climática é basicamente estrangeira, a língua acaba se tornando um obstáculo para alguns profissionais: “Eu que trabalho com isso há 10 anos, só entendo 8% do que leio”.

Fora do Brasil, a questão climática tem um destaque maior. No Reino Unido, o assunto entrou na agenda dos jornais. Porém alguns acontecimentos fizeram com que o público e a imprensa se tornassem mais céticos em relação ao aquecimento global. No fim do ano passado, um hacker roubou e-mails de um grupo de climatologistas britânicos e, a partir disso, eles passaram a ser acusados de distorção de dados e de cometer fraudes a fim de tornar o aquecimento global mais real. O IPCC também relatou três erros nos seus relatórios, em relação ao degelo do Himalaia, o nível do mar na Holanda e das secas na Amazônia. Começou-se assim a teoria da conspiração ambientalista.

“Os jornalistas embarcaram na conspiração de que o aquecimento global é uma fraude, os escândalos dão as maiores notícias. Mas, enquanto isso, todos os dados mostram que as temperaturas continuam subindo”, afirma Claudio Angelo.  O jornalista também explica que o lobby da energia suja tenta criar uma contracorrente ambiental, transformando a certeza das mudanças climáticas em dúvida. E enquanto isso, os jornais não gostam de usar incertezas, o “pode”. O que eles preferem noticiar são os cenários apocalípticos que o público nunca vê ocorrer.

A repórter do Valor Econômico especializada em cobertura do meio ambiente, Daniela Chiaretti, disse que as Conferências da ONU sobre Mudanças climáticas, as COP, não são de grande interesse de cobertura por muitos veículos. “São difíceis de cobrir e muitas vezes não dão matéria, apesar de serem o maior fórum democrático para discutir o clima no mundo”, diz a jornalista. O encontro de 2009 em Copenhagen só recebeu grande destaque por se acreditar que grandes decisões seriam tomadas, mas na verdade se apresentou um fracasso total.

A situação que Daniela encontra nessas reuniões é o eterno embate entre os países ricos do Norte, que querem medidas ambientais, e os países pobres do Sul, que não querem prejudicar seu desenvolvimento. Em Copenhagen, a repórter se deparou com uma cena que expressa muito bem essa questão. Em uma coletiva com mais de 80 jornalistas, os representantes da Alemanha e da Índia começaram a discutir publicamente, “foi muito fácil perceber os dois lados que se opõem nesses encontros”.

Daniela expôs as expectativas para a Conferência de Cancun, no final de 2010: “ninguém espera que seja assinado um acordo climático entre todos os países; é possível que saiam pequenos pacotes, talvez alguma solução para Kyoto”. Já existe um texto de 24 páginas sobre um acordo mundial, mas enquanto capítulos que discutem temas como Floresta e Tecnologia estão praticamente fechados, os que entram em assuntos como Emissões de Carbono são esquecidos. A repórter ainda alerta: “Durante essas conferências, cada país quer defender o seu, é preciso sempre desconfiar do que você ouve, e prestar atenção às fontes que repassam certas informações”.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Como entender – e explicar – as mudanças climáticas

Claudio Angelo claudio.angelo@grupofolha.com.br

Daniela Chiaretti

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

A reportagem deve começar a ser escrita antes do desastre

30 jul

Texto: Rafael Carneiro da Cunha (2º ano – PUC-SP) / Foto: Germano Assad

Palestrante Italo Nogueira

Palestrante Italo Nogueira relata suas experiências com desastres naturais

Soterramento de hotel em Angra dos Reis, janeiro de 2010. Deslizamentos de terra em Niterói, abril de 2010. Desastres naturais que estamparam as capas dos jornais no primeiro semestre deste ano, fenômenos que podem voltar a ocorrer quando o próximo temporal inundar as cidades. Para transmitir a informação à sociedade entra o trabalho do jornalista, que em situações como estas deve estar preparado e ser muito cauteloso.

Italo Nogueira, repórter da sucursal do Rio de Janeiro da Folha de S.Paulo é um desses profissionais especializados que trabalham na cobertura de desastres naturais. Ele esteve presente no 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo e contou suas experiências na cobertura dos desastres ocorridos na Baixada Fluminense, em Angra dos Reis, Niterói e na cidade do Rio.

“Uma matéria desse tipo começa a ser escrita meses antes de o desastre acontecer. É importante conhecer a história do local. Em caso de chuvas, por exemplo, você já pode ter em mãos um mapeamento das áreas de risco, o projeto de prevenção de deslizamento da área e até entrevistas com moradores do local”, explica.

Nogueira acredita que com esses dados em mãos, o jornalista está pronto para fazer uma reportagem de uma tragédia ambiental. Ele ainda alertou para alguns empecilhos que o profissional pode encontrar como as famílias abaladas que não querem dar entrevista e a dificuldade de não se envolver com a situação.

O jornalista da Folha ainda apresentou alguns de seus trabalhos. Um deles chamou a atenção do público por ser uma reportagem que fugia um pouco aos padrões do jornalismo tradicional. “Escrevi essa matéria no caso de Angra. No primeiro dia dei a notícia com informações objetivas do fato, assim como os outros veículos de comunicação. Para não repetir o que tinha dito nos dias anteriores, escrevi no terceiro dia sobre um poema que foi encontrado enquanto eram feitas as escavações”, lembra.

Cobertura de desastres naturais: chuvas, enchentes e deslizamentos

Italo Nogueira italo.nogueira@grupofolha.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

Cobertura de desastres naturais: tragédia no Haiti

30 jul

Texto: Clara Roman (2˚ ano – ECA-USP) / Fotos: Germano Assad

A palestra relatou a cobertura do terremoto no Haiti, ocorrido em 12 de janeiro de 2010. Os três palestrantes foram enviados especiais ao Haiti depois da tragédia. Foi marcante a troca de experiências e impressões, em um tom de diálogo, e como cada um viveu um momento diferenciado da cobertura.

Primeiramente Lília Teles, enviada especial da TV Globo , contou de sua experiência em Porto Príncipe nos primeiros dias após o desastre. “Uma vivência como essa não sai da gente. A gente fica completamente envolvida com aquilo.” Nessa fase inicial, as equipes de resgate procuram sobreviventes sob os escombros. Teles conta de dois resgates que presenciou e que viveu de maneira muito próxima. No país abalado, a dificuldade técnica para a cobertura, principalmente para TV era grande. Gerar a matéria e transmiti-la era um desafio diário. Quando a repórter conseguia, o Jornal Nacional já havia iniciado. A falta de estrutura fez com que a equipe optasse por fazer a narração corrida. Lilia andava pelas ruas e ia contando o que ia vendo, enquanto o cinegrafista gravava.

Palestrante Fábio Zanini

Palestrante Fábio Zanini

Fábio Zanini foi para o Haiti na segunda semana após o terremoto.  Ele foi escolhido para a tarefa  um pouco por causa de sua experiência anterior com cobertura internacional, sobretudo em países africanos e um pouco pelo acaso: Zanini trabalha na sucursal da Folha de São Paulo em Brasília. A FAB estava disponibilizando vagas para jornalistas  em um avião que sairia justamente da capital federal.Em sua apresentação, fez uma retrospectiva da cobertura da Folha no Haiti . Antes da tragédia, pouco se falava do país. Algumas poucas matérias esparsas, mesmo com a presença constante do exército brasileiro. Depois do episódio, o Haiti foi manchete do jornal durante 9 dias consecutivos. Aos poucos, houve a necessidade de variar as pautas e resgatar outros focos. Zanini destaca matérias sobre a diplomacia entre EUA e Brasil. Ele relatou os dilemas éticos que viveu. Naquele contexto, era muito difícil não se envolver. Além disso, era difícil ter uma visão imparcial do exército brasileiro, que os recebeu muito bem em sua base.

Por fim, Adriana Carranca, repórter especial do jornal O Estado de S.Paulo, relatou uma vivência completamente diferenciada. Ela foi sozinha ao Haiti dois meses depois do desastre. Na ocasião,  havia ido para um casamento na República Dominicana, que ocupa a mesma ilha que o Haiti. Se ofereceu para fazer essa cobertura posterior e o jornal concordou. Carranca já havia estado em outro países, como o Irã. Ela se especializou nesse tipo de cobertura. (confira mais relatos em blogs.estadao.com.br/adriana-carranca/).

Enquanto Zanini e Teles conviveram com muitos jornalistas e viram grandes equipes de ajuda em ação, Carranca encontrou um cenário bastante abandonado. Os jornais deixaram de considerar o Haiti interessante depois de um tempo.  Ela quase não viu ajuda humanitária nas ruas e o pouco que viu concentrava-se nas proximidades dos aeroportos ou circulava apenas para produção de material de divulgação. Não havia nenhum trabalho de reconstrução. Os escombros e corpos continuavam espalhados nas ruas. Não havia esforços para que a situação começasse a se resolver.

Os três comentaram o caráter intenso, marcante desse tipo de cobertura. O Haiti, especialmente. O país já encontrava-se em dificuldades estruturais. O terremoto foi mais uma tragédia. Os haitianos conseguiram se acomodar dentro do cenário de destruição e reconstituir uma vida, um tanto improvisada, morando em barracas, entre escombros, desviando-se de corpos, procurando ajuda.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Cobertura de desastres naturais: tragédia no Haiti

Adriana Carrancaadriana.carranca@grupoestado.com.br

Fábio Zaninifabio.zanini@grupofolha.com.br

Lilia Teleslilia.teles@globotv.com

“Não existe jornalismo ambiental”

30 jul

Texto: Rafael Balago (4º ano – Mackenzie) e Ana Krepp (3º ano – Mackenzie)

A cobertura de temas ambientais não deve ser rotulada numa editoria, pois seus acontecimentos não estão isolados, e influem muito em todos os outros assuntos do jornal. Essa foi a principal mensagem do debate Como transformar a cobertura ambiental em um tema interessante ao grande público, que contou com as presenças de André Trigueiro e Daniela Chiaretti, e mediação de Marcelo Moreira, vice-presidente da Abraji e editor do RJTV, da TV Globo. “Jornalismo é contar histórias, você está falando de projetos de civilização, e de quanto podemos mudar a realidade”, definiu Trigueiro.

Assim, a saída é sempre destacar a importância que o fato representa: mesmo ligado ao ambiente, o acontecimento “ambiental” tem profundas consequências econômicas, políticas e para o dia-a-dia.  Trigueiro lembrou que matérias focadas no “Não faça” são chatas e não despertam a atenção do leitor. A saída é mostrar direto as consequências. “Ao jogar lixo na rua, aumenta-se o gasto público com a limpeza, dinheiro que poderia ser investido em melhores salários para médicos e professores.”, deu como exemplo o apresentador da Globo News.

Tanto ele quanto Daniela Chiaretti, repórter do Valor Econômico, contaram as diferenças da cobertura dos temas ligados ao ambiente. “O assunto é mais prazeroso e as fontes, mais confiáveis”, definiu Trigueiro. No entanto, é preciso cuidado. “Muitas vezes, o especialista tem dificuldade para explicar os temas com rapidez para o jornalista. Se você não entendeu, não tenha vergonha de perguntar de novo”, ressaltou.  Na hora de fazer a matéria, é muito importante evitar o didatismo (“não deixar o leitor se sentir burro”) e ter cuidado ao traduzir expressões e conceitos. “No melhor intuito você pode corromper a informação”, alertou o jornalista.

Daniela acredita que, ao tentar tornar mais compreensíveis os temas ambientais, corre-se o risco de optar por termos batidos. A palavra sustentabilidade não lhe agrada. “O conceito é outro, o uso do termo está desgastado “.

A repórter do Valor contou que suas matérias ambientais entram em diversas editorias, de Energia a Agronegócio. Ela destacou que o assunto ambiente costuma gerar imagens muito bonitas, que podem ser usadas para chamar a atenção do leitor, tanto no impresso quanto na TV ou internet.

Como fugir dos bichinhos fofos?

Durante o debate,  uma jornalista na plateia contou que quando leva pautas ambientais ao seu editor, ele pede que a reportagem tenha um ar mais leve, com animais “fofinhos” ou crianças que reciclam o lixo, por exemplo. Os palestrantes sugeriram que nestes casos vale usar argumentação sólida com a chefia, para mostrar a relevância de um  enfoque mais amplo, ou usar a parte dos comentários para passar outras informações que não conseguiram espaço na matéria principal.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Como transformar a cobertura ambiental em um tema interessante ao grande público

André Trigueiroandre.trigueiro@tvglobo.com.br

Daniela Chiarettidanichiaretti@uol.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da Unesco e da Oboré.