Jornalismo (in)discreto

31 jul

Texto: Lucas Rodrigues (2˚ ano – ECA-USP)

A discussão em torno da utilização de equipamentos como gravadores e câmeras escondidas, e o uso de falsa identidade por parte dos jornalistas, foram os temas da palestra “Métodos heterodoxos de apuração – infiltração e câmera escondida”. No debate, os jornalistas Eduardo Faustini , Luciana Kraemer e Tyndaro Menezes contaram um pouco de suas experiências e levantaram as principais questões sobre o assunto.

A apresentação de Luciana foi voltada para abordagem ética do emprego desses recursos. Segundo uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, a maioria das pessoas aprovam as reportagens investigativas, mas não é a favor de infiltração, câmeras escondidas, pagamento de informantes e fontes não identificadas. Para Luciana, o profissional que realiza esse trabalho, ou “é visto de maneira glamourosa, ou é muito criticado”.

A jornalista contou, ainda, que não é de hoje que essas técnicas são utilizadas. “Essa forma de se fazer jornalismo tem 125 anos”. Explicou, porém, que a diferença entre a época de William Thomas Stead, repórter que chegou a “comprar” uma jovem para denunciar um esquema de prostituição infantil, e a nossa era de equipamentos avançados, é apenas em relação à tecnologia.

Para ilustrar alguns conceitos sobre ética jornalística, Luciana apontou a teoria de dois profissionais da área. Caio Túlio Costa acredita que os jornalistas têm uma moral provisória, adaptada para cada situação, ao contrário da antiga definição de Cláudio Abramo, para quem os jornalistas devem ter a ética de qualquer cidadão; já Eugênio Bucci defende a ideia de que os repórteres seguem duas linhas de conduta: a utilitária, em que se pesam os benefícios e prejuízos a partir de determinadas ações, e a deontológica, que, baseada no imperativo categórico kantiano, analisa os fins de cada decisão.  Segundo Luciana, na maioria dos casos “a saída clássica para esses dilemas é o famoso ‘depende’”.

Na prática

Eduardo Faustini e Tyndaro Menezes, ambos jornalistas da TV Globo, defendem a utilização dessas práticas no jornalismo. Para Faustini, o telejornalismo é dependente da imagem, do áudio e do vídeo. “Televisão é visual”, disse. Enfatizou, entretanto, que mesmo assim, o uso desses métodos deve ser feito de modo responsável e com um objetivo, pois uma reportagem pode, mesmo que momentaneamente, melhorar uma situação. “A diferença do jornalismo investigativo é que investigamos para informar”, afirmou.

Faustini contou, também, o caso em que gravou clandestinamente dentro de uma base aérea na Bahia, para mostrar a destruição de alguns documentos sobre presos políticos da ditadura militar. Nesse episódio, optou por utilizar o tão controverso procedimento, mesmo com os incômodos da baixa resolução da imagem e dos possíveis processos que poderia receber, mas tudo em função do interesse público do fato. Para isso, atentou que é preciso avaliar a “necessidade de usar o equipamento no momento certo”.

De acordo com Tyndaro Menezes, no jornalismo você raramente está no acontecimento. E meios como a câmera escondida permitem vivenciar esses momentos. Para ele, algumas situações demandam o uso dessas técnicas, pois, de outra forma, seriam histórias impossíveis de se contar. Disse, porém, que a utilização de microcâmeras, por exemplo, deve ser o último recurso de qualquer reportagem.

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Métodos heterodoxos de apuração – infiltração e câmera escondida

Eduardo Faustini faustini@tvglobo.com.br

Tyndaro Menezes tyndaro@tvglobo.com.br

Luciana Kraemerlukraemer@terra.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
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Mudanças no jornalismo para as mudanças climáticas

31 jul

Texto: Rafael Aloi Paschoal (2˚ ano – ECA-USP)

Poucos jornalistas, no Brasil, cobrem a questão das mudanças climáticas, aponta Claudio Angelo, da Folha de S. Paulo. O tema só passou a crescer no país a partir do Protocolo de Kyoto, e dos acontecimentos subsequentes, como o furacão Katrina em 2005, o filme “Uma verdade inconveniente” em 2006, e os relatórios do IPCC em 2007. Ainda segundo Claudio, a área é árida e como a literatura existente sobre a questão climática é basicamente estrangeira, a língua acaba se tornando um obstáculo para alguns profissionais: “Eu que trabalho com isso há 10 anos, só entendo 8% do que leio”.

Fora do Brasil, a questão climática tem um destaque maior. No Reino Unido, o assunto entrou na agenda dos jornais. Porém alguns acontecimentos fizeram com que o público e a imprensa se tornassem mais céticos em relação ao aquecimento global. No fim do ano passado, um hacker roubou e-mails de um grupo de climatologistas britânicos e, a partir disso, eles passaram a ser acusados de distorção de dados e de cometer fraudes a fim de tornar o aquecimento global mais real. O IPCC também relatou três erros nos seus relatórios, em relação ao degelo do Himalaia, o nível do mar na Holanda e das secas na Amazônia. Começou-se assim a teoria da conspiração ambientalista.

“Os jornalistas embarcaram na conspiração de que o aquecimento global é uma fraude, os escândalos dão as maiores notícias. Mas, enquanto isso, todos os dados mostram que as temperaturas continuam subindo”, afirma Claudio Angelo.  O jornalista também explica que o lobby da energia suja tenta criar uma contracorrente ambiental, transformando a certeza das mudanças climáticas em dúvida. E enquanto isso, os jornais não gostam de usar incertezas, o “pode”. O que eles preferem noticiar são os cenários apocalípticos que o público nunca vê ocorrer.

A repórter do Valor Econômico especializada em cobertura do meio ambiente, Daniela Chiaretti, disse que as Conferências da ONU sobre Mudanças climáticas, as COP, não são de grande interesse de cobertura por muitos veículos. “São difíceis de cobrir e muitas vezes não dão matéria, apesar de serem o maior fórum democrático para discutir o clima no mundo”, diz a jornalista. O encontro de 2009 em Copenhagen só recebeu grande destaque por se acreditar que grandes decisões seriam tomadas, mas na verdade se apresentou um fracasso total.

A situação que Daniela encontra nessas reuniões é o eterno embate entre os países ricos do Norte, que querem medidas ambientais, e os países pobres do Sul, que não querem prejudicar seu desenvolvimento. Em Copenhagen, a repórter se deparou com uma cena que expressa muito bem essa questão. Em uma coletiva com mais de 80 jornalistas, os representantes da Alemanha e da Índia começaram a discutir publicamente, “foi muito fácil perceber os dois lados que se opõem nesses encontros”.

Daniela expôs as expectativas para a Conferência de Cancun, no final de 2010: “ninguém espera que seja assinado um acordo climático entre todos os países; é possível que saiam pequenos pacotes, talvez alguma solução para Kyoto”. Já existe um texto de 24 páginas sobre um acordo mundial, mas enquanto capítulos que discutem temas como Floresta e Tecnologia estão praticamente fechados, os que entram em assuntos como Emissões de Carbono são esquecidos. A repórter ainda alerta: “Durante essas conferências, cada país quer defender o seu, é preciso sempre desconfiar do que você ouve, e prestar atenção às fontes que repassam certas informações”.

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Como entender – e explicar – as mudanças climáticas

Claudio Angelo claudio.angelo@grupofolha.com.br

Daniela Chiaretti

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Mergulho do jornalista em eventos esportivos

31 jul

Texto: Raissa Pascoal (4˚ semestre ECA-USP)

Louco por futebol e especializado no esporte, Paulo Vinícius Coelho, o PVC, cobriu a sua quarta Copa do Mundo este ano. Segundo ele, foi a cobertura que mais exigiu criatividade e, talvez, aquela em que menos se tenha conseguido perceber isso. A cobertura de megaeventos esportivos não se esgota em matérias sobre os jogos: economia, política, sociedade e cultura fazem parte do contexto das competições e também são pautas para os jornalistas.

PVC tem experiência como colunista e comentarista de Copas. Em 1994, trabalhou na revista Placar; em 1998, no Lance e, entre 2006 e 2010 trabalhou como comentarista na ESPN e como colunista da Folha de S.Paulo e do Lance. Para ele, cobrir uma Copa do Mundo requer um mergulho no entendimento daquilo que compõe o evento. PVC acredita ser importante que, durante a cobertura de megaeventos esportivos, um comentarista viva o país sede. “O meu compromisso é dar a informação completa sobre aquilo que está acontecendo dentro do campo. É isso que me faz um especialista”, explica.

O mergulho começa bem antes do início da Copa, cerca de 6 meses antes. Em todos os mundiais, PVC vem trabalhando com a produção de fichas de todos os jogadores de todas as seleções, com informações sobre sua altura, peso, equipes em que já jogou, participação nas Copas entre outras. Essas fichas servem como guias para a redação. “Quem tenta ser especialista de futebol não pode correr o risco de não saber coisas banais sobre Copa do Mundo”, explica PVC. Ele defende a manutenção de um banco de dados atualizados para se fazer jornalismo.

A diferença do trabalho de cobertura em jornal e revista é grande quando comparado ao trabalho de um comentarista na televisão. Segundo PVC, é muito difícil fazer um jornal ou revista segmentados em época de Copa do Mundo, porque a venda dos impressos cai mais de 20%. “Se por um lado no jornal segmentado você tem queda de venda, por outro lado, no canal segmentado sobe a audiência”, diz. Outra diferença é o tipo de trabalho que você tem sendo comentarista ou repórter. “Como comentarista, eu tinha o compromisso e o prazer de assistir a todos os jogos. Como repórter, você não vai assistir à Copa do Mundo, você vai cobri-la”, diz PVC. Ele confessa que, nesta Copa, viu quase todos os jogos, com exceção de quatro.

Em relação à próxima Copa, que será no Brasil, PVC acha que a cobertura começou. Já está em andamento a preparação para sediar o evento e casos de corrupção são fatos reais e que devem ser noticiados. “Eu entendo que 2014 é uma grande oportunidade que nós, jornalistas, temos. É uma oportunidade de fazer matéria”, diz PVC.

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Cobertura de megaeventos esportivos: Copa e Olimpíadas

Paulo Vinícius Coelho

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Dois sujeitos e uma história

31 jul

Texto: Patrícia Ogando (2˚ ano – ECA-USP) / Fotos: Patrícia Ogando e Leandro Melito

Lobão

Foto: Leandro Melito

Os dois gostam de rock n’roll, têm muitos processos judiciais em suas bagagens e são homens de visões apaixonadas. Esse poderia ser o começo de um romance contemporâneo, mas na verdade vamos contar o que rolou na palestra sobre como biografar alguém vivo, com Claudio Tognolli e Lobão. No papo, os dois falaram sobre a gestação de 50 Anos a Mil, livro biográfico de Lobão que conta com a experiência e o respaldo do jornalista Claudio Julio Tognolli.

Antes mesmo do horário de início da apresentação, Tognolli começou a explicar o contexto dessa parceria com Lobão – o biografado, que chegou cerca de uma hora atrasado à sala 714. Nesse meio tempo, Tognolli, com seu jeitão descontraído, falou sobre técnicas de investigação e contou um pouco de sua relação com o cantor e das dificuldades de levantar a história que será lançada em outubro.

Claudio Tognolli

Durante mais de um ano Tognolli e Lobão se encontravam até três vezes por semana no restaurante Spot, na região da avenida Paulista. Nesses encontros, o jornalista procurava sempre levar “algum amigo que tinha algum nome ou cargo de responsabilidade de imprensa” para tentar garantir que Lobão não fosse mentir sobre sua história. Assim, se Lobão contasse a mesma história mais de uma vez, Tognolli entendia que aquilo não deveria ser mentira. “Defino isso como um grande divã, em que ele ia se expondo, se expondo”, revela o jornalista.

Tognolli já pensava em investigar todos os documentos que a Justiça brasileira produziu e recuperar tudo que saiu na mídia sobre Lobão. No entanto, o biografado quis, antes dessa investigação, gravar algumas confissões em áudio sobre eventos de sua vida. E esse método mostrou que o músico tem um problema com gravadores, o Lobão captado ali era um cara triste, diferente do que o jornalista conhecia. Tognolli conta que isso o fez lembrar da frase em que Ruy Castro diz que nunca aceita fazer biografia de pessoa viva “porque isso é um trabalho do cão”.

Nessa procura por um método um bom tempo passou, muitas biografias foram utilizadas como referência e finalmente foi escolhido um modelo, tanto para o texto, quanto para o processo de reconstrução desses 50 anos. Quem escreve é o próprio Lobão, mas é o jornalista quem extrai detalhes, informações e o pauta. Tognolli comprou todos os bancos de dados da mídia sobre Lobão e começou investigar os documentos judiciais. Disso montou uma linha do tempo e começou a, como ele mesmo denomina, “colocar o Lobão na ordem do dia”: extrair dele detalhes que só o olhar curioso de um jornalista poderia ter, questionando até a marca da camisa que Lobão vestia em um determinado dia.

Quase no final da palestra, chega Lobão: “Mas e aí, só pra eu não perder o fio da meada”, querendo saber em que ponto estava o papo. Nesse primeiro contato com todos os que estavam presentes, ele já mostrou ter o mesmo jogo de cintura de anos atrás, quando foi preso com um galho de maconha e acabou virando “assessor de imprensa do Comando Vermelho”. Lobão contou esse episódio:  ele chegou à cela e um detento negro, com um daqueles sorrisos permanentemente estampados na face, o reconheceu. O detento o chamou para sentar-se próximo dele e logo  perguntou: “Aqui na cadeia tem três tipos de pessoas: preto, pobre e burro. Tú se enquadra em qual?”. “Eu sou negão”, foi a resposta de Lobão, cativando na hora Gilmar Negão, que morreu uma semana depois.

Lobão narrou alguns episódios peculiares da sua vida e falou sobre o quanto era maltratado por diversos setores da sociedade pelo seu comportamento “fora dos padrões”. Mas sem nem um pouco parecer querer mudar sua história, sempre tirando sarro da própria cara, diz que as coisas que aconteceram em sua vida foram uma oportunidade, embora dolorida, de vivenciar coisas que não seriam comuns a um jovem de classe média. O cara é um entretenimento, a sala não se esvaziou quando chegou o horário final da palestra. E falando da parceria com Tognolli nessa produção, disse: “no meu caso, se não tivesse essas comprovações (a apuração de Tognolli), iam me chamar de maluco, de novo!”.

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50 anos a Mil: como biografar alguém vivo

Claudio Tognolli tognolli@uol.com.br

Lobão lobaow@gmail.com

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Para uma boa reportagem, os indicadores não bastam

31 jul

Texto e foto: Thiago Fuzihara Crepaldi (4˚ ano – Cásper Líbero)

Adriana Carranca define-se como uma jornalista social. Para ela, “todo o nosso trabalho deve ser voltado para a melhoria de vida da população”. O desafio atual é o de descobrir a melhor forma de cobertura dos programas sociais. “Os indicadores das pesquisas servem para o jornalista construir a sua pauta; na apuração é essencial que ele saia da redação”, disse.

Reconheceu alguns avanços no que diz respeito à fiscalização aos políticos, como a aprovação do Ficha Limpa, que já entra em vigor para esta eleição. No entanto, ainda no tema político – o qual está designada para cobrir, no jornal O Estado de S. Paulo –, criticou a falta de compromisso dos candidatos com suas campanhas: “A marca do mandato de Marta [Suplicy] como prefeita [de São Paulo] foi o CEU, sendo que essa proposta não apareceu em seu plano de governo. Ninguém estava preocupado com o plano de governo, nem os políticos e nem os cidadãos. Isso está se modificando. É a criação de uma nova cultura política – ainda que esteja no âmbito da fofoca política”.

Cobrou das universidades públicas uma participação maior na vida da população: “O mestrado ou doutorado de um aluno da USP é pago pela população de todo o estado. A Academia tem que retornar esse trabalho que foi feito; não podem ficar restritos às universidades, como se fossem um trabalho de inteligência”.

Entrando mais nas questões de programas sociais, ela disse que o jornalista que se dedica a esse tema precisa duvidar sempre dos números e dos especialistas. “Nunca há consenso na aprovação de um programa social. Sempre terá alguém que o acha ruim; outro que o acha mais ou menos e um outro que o acha muito bom. Além da divergência de opiniões, há também muitos indicadores que mascaram, que enganam, que contrapõem, que contradizem. Os números enganam bastante; são passíveis de várias interpretações.”

Para ilustrar, a jornalista deu um exemplo: um município com 100% das crianças em idade escolar matriculadas pode esconder uma realidade cruel. Uma alta mortalidade infantil somada com um bom secretário de Educação chegam a esse resultado. Ou seja, as crianças só estudam porque parte delas não chegou até a idade de se matricular –  morreu antes.

Sobre a reportagem “Dois Brasis”, que lhe conferiu o Prêmio Estado de Jornalismo em 2003, mostrando o abismo social entre a melhor e a pior cidade do país, tendo como base o índice de desenvolvimento humano, ela revelou uma curiosa observação: “A diferença na expectativa de vida da cidade mais rica para a mais pobre era de vinte e quatro anos. Na cidade mais pobre não havia velhinhos. Não tinha uma pessoa com cabelos brancos; todos morriam antes de chegar nesse estágio da vida”.

Adriana Carranca mantém um blog no Estadao.com, sobre direitos humanos.

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Como fiscalizar programas sociais

Adriana Carranca adriana.carranca@grupoestado.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

Maior desafio do jornalista é inventar o próprio emprego

31 jul

Texto: Danielle Denny (1º ano – Mackenzie) / Foto: Germano Assad

Jornalista Rosental Calmon Alves

Jornalista Rosental Calmon Alves

A crise de 2008 vem sendo aos poucos superada, contudo persiste uma crise estrutural. A revolução digital possibilita conectividade ubíqua e permanente, com impactos na ordem econômica, social, política e cultural. A mudança dos paradigmas da comunicação é apenas mais um desses aspectos da crise.

O impacto no modelo de negócio das mídias tradicionais é deletério. Afinal, processos revolucionários são caóticos e destrutivos. O antigo rompe mais rápido do que o novo e não é totalmente substituído, surge outra lógica. Leva um tempo para uma linguagem própria ser criada. Haja vista o exemplo do rádio que em seus primórdios era jornal falado.

Junto com as ameaças, surgem também oportunidades. A liberdade criativa é praticamente infinita. O empreendedorismo, louvável. E a oportunidade de compartilhar e participar, inédita.

Um exemplo de sucesso citado por Rosental Calmon Alves (Centro Knight para Jornalismo nas Américas) foi o nascimento de jornalismo sem fins lucrativos, como o realizado pelo jornal Texas Tribune (www.texastribune.org). Um venture capitalist em tecnologia financiou a fundação do jornal com 1 milhão de dólares e levantou mais 3 milhões entre amigos. O jornal contratou os melhores jornalistas pagando salários decentes e hoje em dia é administrado como uma empresa lucrativa. A única diferença é que o jornal não tem dono, então se sobrar recursos reinveste ou aplica. Talvez essa seja uma das possibilidades para o futuro.

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Ameaças e oportunidades para o jornalismo investigativo na era digital

Rosental Calmon Alves – rosental.alves@austin.utexas.edu

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

“Não há país na América Latina que escape do tráfico”

31 jul

Texto: Eduardo S. Nascimento (2˚ ano ECA-USP) / Fotos: Rafael Balago e Germano Assad

Palestrantes Mauri Konig, Judith Torrea, Mabel Rehnfeldt e Gabriel Bermúdez (Rafael Balago)

Palestrantes Mauri Konig, Judith Torrea, Mabel Rehnfeldt e Gabriel Bermúdez (RBalago)

Quem afirma é Mabel Rehnfeldt, correspondente da ABC Digital no Paraguai. Além da jornalista, também falaram de sua experiência com o crime organizado Judith Torrea, espanhola que vive no México, e Gabriel Bermúdez, repórter do argentino Clarín.

Torrea cobre especificamente Ciudad Juárez, no México. A cidade é considerada a mais violenta do mundo, e a jornalista mantém um blog independente sobre as histórias que descobre no local. “Eu sou a única jornalista internacional em Ciudad Juárez”, afirma Torrea.

Palestrante Judith Torrea

Palestrante Judith Torrea (GAssad)

A região é habitada majoritariamente por operários das chamadas indústrias maquiladoras – empresas estrangeiras que buscam mão-de-obra barata no México – que ganham 40 dólares por semana. “Muitos jovens são consumidores de drogas e, para bancar este consumo, trabalham para os cartéis”, o que levou a uma grande militarização do lugar.

A repórter conta que “a partir das 21 horas as casas estão todas vazias, vira somente uma cidade com tanques militares”. No entanto, se sente o perigo por todas as partes. Antes do governo do atual presidente, Felipe Calderón, Juárez era uma cidade com muitos restaurantes, teatros, show e agora “os únicos lugares em que encontramos pessoas são os cemitérios. Se antes existia perigo só para mulheres pobres e bonitas, agora o perigo se democratizou”.

Já a experiência da jornalista paraguaia se deu na investigação sobre o contrabando internacional de cigarros em que seu país estava envolvido. Foi montada uma enorme rede de colaboração entre jornalistas na internet para a realização do projeto.

Diz Rehnfeldt que não havia cifras oficiais sobre as fábricas de cigarros e números de diferentes órgãos oficiais discordavam entre si. Os jornalistas buscaram as quantidades de tabaco e filtro que teriam de ser comprados para produzir cigarros. A descoberta foi que, se realmente não houvesse exportação como diziam as autoridades, a produção de cigarros do Paraguai seria suficiente para que todo habitante do país fumasse vários maços por dia, inclusive bebês e recém-nascidos.

Diz a repórter que “de noite o céu do Paraguai parece uma árvore de Natal”, pois o país não tem radares para rastrear os aviões do contrabando. A saída do cigarro também se dá por água, “no Rio Itaipu há mais de 300 portos clandestinos”. Para navegar o Rio, a jornalista disse ter corrido muitos riscos de morte e era sempre acompanhada por policiais de arma em punho, para eventuais ataques dos contrabandistas.

O aumento do tráfico se deu porque “é ‘mais lícito’ traficar cigarro do que drogas”, as penas em caso de apreensão são bem menores. Boa parte da mercadoria contrabandeada tinha como destino o Brasil e jornalistas brasileiros também contribuíram para a realização da matéria, no entanto nada foi publicado aqui sobre o assunto, enquanto no Paraguai os resultados vieram à mídia, de acordo com a palestrante.

Gabriel Bermúdez conta que a Argentina também sofre com o tráfico de drogas. Mas lembra que em seu país também existem, simultaneamente, as outras do que chamou “Cinco Guerras da Globalização”: o tráfico de armas, de pessoas, de dinheiro (lavagem) e a pirataria.

Para o tráfico de pessoas, “um país tanto de origem quanto de destino é o Paraguai”. Na Argentina muitas das vítimas são jovens de rua. Um caso emblemático é o de Fernanda Aguirre: sequestrada aos 13 anos em 2004, sua mãe passou a procurá-la por conta própria. Em maio deste ano, a mãe faleceu sem descobrir o paradeiro da garota. Na Argentina, a lei contra a lavagem de dinheiro tem 10 anos, mas nenhuma pessoa jamais foi condenada por esse crime.

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Crime organizado na América Latina – Brasil, Argentina, Paraguai e México

Mauri Konig – maurik@gazetadopovo.com.br

Judith Torrea – judiththat@gmail.com

Mabel Rehnfeldt – mabel@abc.com.py

Gabriel Bermúdez – bermudezgabriel66@speedy.com.ar

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
Judith Torrea cobre casos semelhantes, mas especificamente em Ciudad Juárez, no México. A cidade é considerada a mais violenta do mundo, e a jornalista mantém um blog independentesobre as histórias que descobre no local. “Eu sou a única jornalista internacional em Ciudad Juárez”, afirma Torrea.

O local é habitado majoritariamente por operários das chamadas industrias maquiladoras – empresas estrangeiras que buscam mão-de-obra barata no México – que ganham 40 dólares por semana. “Muitos jovens são consumidores de drogas e, para bancar este consumo, trabalham para os cartéis”, o que levou a uma grande militarização do lugar.

A repórter conta que “a partir das 21h as casas estão todas vazias, vira somente uma cidade com tanques militares”. No entanto, se sente o perigo por todas as partes. Antes do governo do atual presidente, Felipe Calderón, Juárez era uma cidade com muitos restaurantes, teatros, show e agora “os únicos lugares em que encontramos pessoas são os cemitérios. Se antes existia perigo para mulheres pobres e bonitas, agora o perigo se democratizou”.