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Dois sujeitos e uma história

31 jul

Texto: Patrícia Ogando (2˚ ano – ECA-USP) / Fotos: Patrícia Ogando e Leandro Melito

Lobão

Foto: Leandro Melito

Os dois gostam de rock n’roll, têm muitos processos judiciais em suas bagagens e são homens de visões apaixonadas. Esse poderia ser o começo de um romance contemporâneo, mas na verdade vamos contar o que rolou na palestra sobre como biografar alguém vivo, com Claudio Tognolli e Lobão. No papo, os dois falaram sobre a gestação de 50 Anos a Mil, livro biográfico de Lobão que conta com a experiência e o respaldo do jornalista Claudio Julio Tognolli.

Antes mesmo do horário de início da apresentação, Tognolli começou a explicar o contexto dessa parceria com Lobão – o biografado, que chegou cerca de uma hora atrasado à sala 714. Nesse meio tempo, Tognolli, com seu jeitão descontraído, falou sobre técnicas de investigação e contou um pouco de sua relação com o cantor e das dificuldades de levantar a história que será lançada em outubro.

Claudio Tognolli

Durante mais de um ano Tognolli e Lobão se encontravam até três vezes por semana no restaurante Spot, na região da avenida Paulista. Nesses encontros, o jornalista procurava sempre levar “algum amigo que tinha algum nome ou cargo de responsabilidade de imprensa” para tentar garantir que Lobão não fosse mentir sobre sua história. Assim, se Lobão contasse a mesma história mais de uma vez, Tognolli entendia que aquilo não deveria ser mentira. “Defino isso como um grande divã, em que ele ia se expondo, se expondo”, revela o jornalista.

Tognolli já pensava em investigar todos os documentos que a Justiça brasileira produziu e recuperar tudo que saiu na mídia sobre Lobão. No entanto, o biografado quis, antes dessa investigação, gravar algumas confissões em áudio sobre eventos de sua vida. E esse método mostrou que o músico tem um problema com gravadores, o Lobão captado ali era um cara triste, diferente do que o jornalista conhecia. Tognolli conta que isso o fez lembrar da frase em que Ruy Castro diz que nunca aceita fazer biografia de pessoa viva “porque isso é um trabalho do cão”.

Nessa procura por um método um bom tempo passou, muitas biografias foram utilizadas como referência e finalmente foi escolhido um modelo, tanto para o texto, quanto para o processo de reconstrução desses 50 anos. Quem escreve é o próprio Lobão, mas é o jornalista quem extrai detalhes, informações e o pauta. Tognolli comprou todos os bancos de dados da mídia sobre Lobão e começou investigar os documentos judiciais. Disso montou uma linha do tempo e começou a, como ele mesmo denomina, “colocar o Lobão na ordem do dia”: extrair dele detalhes que só o olhar curioso de um jornalista poderia ter, questionando até a marca da camisa que Lobão vestia em um determinado dia.

Quase no final da palestra, chega Lobão: “Mas e aí, só pra eu não perder o fio da meada”, querendo saber em que ponto estava o papo. Nesse primeiro contato com todos os que estavam presentes, ele já mostrou ter o mesmo jogo de cintura de anos atrás, quando foi preso com um galho de maconha e acabou virando “assessor de imprensa do Comando Vermelho”. Lobão contou esse episódio:  ele chegou à cela e um detento negro, com um daqueles sorrisos permanentemente estampados na face, o reconheceu. O detento o chamou para sentar-se próximo dele e logo  perguntou: “Aqui na cadeia tem três tipos de pessoas: preto, pobre e burro. Tú se enquadra em qual?”. “Eu sou negão”, foi a resposta de Lobão, cativando na hora Gilmar Negão, que morreu uma semana depois.

Lobão narrou alguns episódios peculiares da sua vida e falou sobre o quanto era maltratado por diversos setores da sociedade pelo seu comportamento “fora dos padrões”. Mas sem nem um pouco parecer querer mudar sua história, sempre tirando sarro da própria cara, diz que as coisas que aconteceram em sua vida foram uma oportunidade, embora dolorida, de vivenciar coisas que não seriam comuns a um jovem de classe média. O cara é um entretenimento, a sala não se esvaziou quando chegou o horário final da palestra. E falando da parceria com Tognolli nessa produção, disse: “no meu caso, se não tivesse essas comprovações (a apuração de Tognolli), iam me chamar de maluco, de novo!”.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

50 anos a Mil: como biografar alguém vivo

Claudio Tognolli tognolli@uol.com.br

Lobão lobaow@gmail.com

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.

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Quanto maior a verdade, maiores os danos

30 jul

Texto: Rafael Balago e Rafael Ciscati (2º ano – ECA-USP) / Foto: Raissa Pascoal

Como investigar crimes praticados por empresas de grande porte, cujas atividades impactam milhões de pessoas, mas que se protegem atrás de assessores de imprensa e administrações fechadas? “Comece pela internet. Nem tudo está online, mas sua pesquisa começa por lá”, ensinou Lowell Bergman, professor de jornalismo nos EUA e correspondente do New York Times. Em companhia de Ivana Moreira, Lowell participou da palestra Investigações de Empresas Privadas, no 5º Congresso de Jornalismo Investigativo, promovido pela Abraji.

Lowell Bergman e Ivana Moreira discutem como investigar empresas

Lowell Bergman e Ivana Moreira discutem como investigar empresas

Além da internet, as comissões que fiscalizam as operações financeiras podem ser importantes fontes, pois registram as transações realizadas pelas empresas ao redor do mundo. Outras fontes são os balanços financeiros, relatórios e processos que correm na justiça. Além do faro para encontrar estes documentos, é preciso paciência e atenção para lê-los. E lembre-se de ler o final dos documentos, onde escondem-se os registros de irregularidades. “É nesta parte que você encontra o que realmente importa para você como jornalista”, sentenciou Bergman.

E quanto mais relevantes forem os fatos levantados, mais prejuízos podem trazer às pessoas envolvidas no crime. “Quanto maior a verdade, maiores os danos que ela pode causar”, lembrou o professor. Pior ainda se sua investigação pode prejudicar o veículo em que você trabalha,caso a empresa jornalística tenha relações financeiras de qualquer tipo com as companhias sob suspeita. “Sempre apresento minhas coberturas como o registro de um crime. Abordar um crime é um serviço público, e o assunto vende bastante jornal”, contou o correspondente.

Ivana concorda – sempre que as finanças do jornal estão em jogo, mais difícil convencer a direção a publicar a matéria. Atual chefe de redação da BandNews FM em Minas Gerais, Ivana passou anos da carreira encarregada de cobrir empresas para o jornal Valor Econômico.  E sabe: se uma investigação põe em risco a receita publicitária do veículo, a decisão de levá-la adiante é ameaçada: “Para as empresas jornalísticas, é sempre difícil investigar seus próprios anunciantes”.

Tal situação é mais rara se houver envolvimento do governo: “Quando a história inclui corrupção governamental, é impossível um jornal deixar de cobrir”, defende. “Foi na fiscalização de corrupção relacionada a governo que a mídia brasileira mais avançou”.

Por conhecer a área, Ivana torce pelo dia em que, no Brasil, existirão os mesmo recursos disponíveis em países como os EUA: “Existem recursos fora do Brasil, de acesso a documentação, que inexistem no Brasil”. Por aqui, afirma, ainda é preciso seguir pelas vias tradicionais, e tentar cultivar boas fontes. A dica, qualquer que seja o país, é sempre a mesma: “Siga o dinheiro”.  Saber ler balanços de empresas é fundamental. A partir deles podem surgir pistas para uma matéria, ou mesmo uma pauta. É também importante procurar processos que pesem contra elas.

Segundo diz, no entanto, não se pode deixar de ter fontes “abaixo da linha do media training”, aquelas pessoas que não são treinadas para lidar com a imprensa, mas que possuem informações importantes. Eles podem dar detalhes sem nem mesmo perceber. Procurar por fontes contrárias também é boa opção: antigos diretores, ex-funcionários que, pelo seu vínculo anterior com a empresa, conheçam histórias que ainda não vieram à tona. Nesses caso, toda cautela é pouca.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Investigação de Empresas Privadas

Ivana Moreira – ivanamoreira@hotmail.com

Lowell Bergman

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da Unesco e da Oboré.