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Notas frias na Assembleia de Minas

31 jul

Texto: Alexandre Dall’Ara (2˚ ano – ECA-USP)

“Quero as mesmas condições do deputado”. Assim o repórter Thiago Herdy, do “Estado de Minas”, abordava as empresas que prestavam serviço para a Assembleia do Estado. Sempre se identificando como assessor parlamentar, com gravação de áudio escondida, Thiago buscava uma prova que confirmasse os indícios de corrupção apontados pelas notas de reembolso da verba indenizatória dos parlamentares.

Em 2001, com o escândalo dos supersalários, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais instituiu novas regras. Os salários foram diminuídos e foi criada uma cota de indenização para gastos dos deputados. Essas indenizações podem chegar a R$ 20 mil por mês, entre dez grupos de despesas, que vão de combustíveis até equipamento para escritório. Além disso, o valor é acumulativo, ou seja, o que não foi usado em um mês, pode ser usado em outro, contanto que no mesmo ano. Isso faz com que em alguns messes as indenizações ultrapassem os 20 mil estipulados.

As notas, que devem ser apresentadas para o parlamentar receber o reembolso, são todas divulgadas no site da assembléia com número de série, CNPJ da empresa, data da compra etc. A partir dessas informações, o repórter criou um banco de dados, com as notas de julho do ano passado até janeiro desse ano. Durante esses messes ele montou uma planilha com todos os dados repassados pela Assembleia.

Munido dos dados, compilados com a ajuda das colegas Alessandra Mello e Amanda Almeida, Thiago começou a identificar as empresas suspeitas, seja por emitirem notas seriadas, por serem as maiores fornecedoras, ou por terem emitido as notas de maior valor. A equipe passou então a apurar informações sobre essas empresas.

Com mais de R$ 680 mil em serviços prestados – quase 8% de todo o valor pago em indenizações – a Máxima Comércio Ltda. foi a empresa que mais chamou a atenção. Empresa da área gráfica, ela prestou serviço para treze deputados e emitiu 44 notas que pertenciam a séries numeradas. Mas isso não bastava pra a reportagem, era preciso uma informação mais consistente que demonstrasse alguma irregularidade. O repórter não conseguiu informações relevantes ao visitar o local passando-se por assessor parlamentar. “O Washington [dono da empresa] era muito esperto, ele logo percebeu o que eu era jornalista”. Entretanto, sabendo que a empresa terceirizava o custo de produção, Thiago conseguiu, com a gráfica que imprimia os serviços da Máxima para a assembléia, as notas de prestação de serviço. Elas somavam R$ 124 mil, ou seja, havia um lucro de 82% para a Máxima Comércio Ltda., o que claramente indicava superfaturamento.

Além desse caso, a equipe de repórteres achou um posto de combustível que dizia não conhecer o deputado e as notas apresentadas por ele; uma empresa de consultoria, responsável por notas no valor de R$ 67 mil, com sede no mesmo endereço do Eligê Futebol Clube; e outra gráfica, cujo dono declarou para o repórter que vendia notas aos parlamentares. Assim, as matérias criaram a série de reportagem Notas Frias S/A, publicada no Estado de Minas em Abril desse ano.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Notas frias S/A: bastidores de uma investigação jornalística sobre a assembleia legislativa de MG

Thiago Herdy – thiagoherdy@gmail.com

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
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