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“Não há país na América Latina que escape do tráfico”

31 jul

Texto: Eduardo S. Nascimento (2˚ ano ECA-USP) / Fotos: Rafael Balago e Germano Assad

Palestrantes Mauri Konig, Judith Torrea, Mabel Rehnfeldt e Gabriel Bermúdez (Rafael Balago)

Palestrantes Mauri Konig, Judith Torrea, Mabel Rehnfeldt e Gabriel Bermúdez (RBalago)

Quem afirma é Mabel Rehnfeldt, correspondente da ABC Digital no Paraguai. Além da jornalista, também falaram de sua experiência com o crime organizado Judith Torrea, espanhola que vive no México, e Gabriel Bermúdez, repórter do argentino Clarín.

Torrea cobre especificamente Ciudad Juárez, no México. A cidade é considerada a mais violenta do mundo, e a jornalista mantém um blog independente sobre as histórias que descobre no local. “Eu sou a única jornalista internacional em Ciudad Juárez”, afirma Torrea.

Palestrante Judith Torrea

Palestrante Judith Torrea (GAssad)

A região é habitada majoritariamente por operários das chamadas indústrias maquiladoras – empresas estrangeiras que buscam mão-de-obra barata no México – que ganham 40 dólares por semana. “Muitos jovens são consumidores de drogas e, para bancar este consumo, trabalham para os cartéis”, o que levou a uma grande militarização do lugar.

A repórter conta que “a partir das 21 horas as casas estão todas vazias, vira somente uma cidade com tanques militares”. No entanto, se sente o perigo por todas as partes. Antes do governo do atual presidente, Felipe Calderón, Juárez era uma cidade com muitos restaurantes, teatros, show e agora “os únicos lugares em que encontramos pessoas são os cemitérios. Se antes existia perigo só para mulheres pobres e bonitas, agora o perigo se democratizou”.

Já a experiência da jornalista paraguaia se deu na investigação sobre o contrabando internacional de cigarros em que seu país estava envolvido. Foi montada uma enorme rede de colaboração entre jornalistas na internet para a realização do projeto.

Diz Rehnfeldt que não havia cifras oficiais sobre as fábricas de cigarros e números de diferentes órgãos oficiais discordavam entre si. Os jornalistas buscaram as quantidades de tabaco e filtro que teriam de ser comprados para produzir cigarros. A descoberta foi que, se realmente não houvesse exportação como diziam as autoridades, a produção de cigarros do Paraguai seria suficiente para que todo habitante do país fumasse vários maços por dia, inclusive bebês e recém-nascidos.

Diz a repórter que “de noite o céu do Paraguai parece uma árvore de Natal”, pois o país não tem radares para rastrear os aviões do contrabando. A saída do cigarro também se dá por água, “no Rio Itaipu há mais de 300 portos clandestinos”. Para navegar o Rio, a jornalista disse ter corrido muitos riscos de morte e era sempre acompanhada por policiais de arma em punho, para eventuais ataques dos contrabandistas.

O aumento do tráfico se deu porque “é ‘mais lícito’ traficar cigarro do que drogas”, as penas em caso de apreensão são bem menores. Boa parte da mercadoria contrabandeada tinha como destino o Brasil e jornalistas brasileiros também contribuíram para a realização da matéria, no entanto nada foi publicado aqui sobre o assunto, enquanto no Paraguai os resultados vieram à mídia, de acordo com a palestrante.

Gabriel Bermúdez conta que a Argentina também sofre com o tráfico de drogas. Mas lembra que em seu país também existem, simultaneamente, as outras do que chamou “Cinco Guerras da Globalização”: o tráfico de armas, de pessoas, de dinheiro (lavagem) e a pirataria.

Para o tráfico de pessoas, “um país tanto de origem quanto de destino é o Paraguai”. Na Argentina muitas das vítimas são jovens de rua. Um caso emblemático é o de Fernanda Aguirre: sequestrada aos 13 anos em 2004, sua mãe passou a procurá-la por conta própria. Em maio deste ano, a mãe faleceu sem descobrir o paradeiro da garota. Na Argentina, a lei contra a lavagem de dinheiro tem 10 anos, mas nenhuma pessoa jamais foi condenada por esse crime.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

Crime organizado na América Latina – Brasil, Argentina, Paraguai e México

Mauri Konig – maurik@gazetadopovo.com.br

Judith Torrea – judiththat@gmail.com

Mabel Rehnfeldt – mabel@abc.com.py

Gabriel Bermúdez – bermudezgabriel66@speedy.com.ar

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
Judith Torrea cobre casos semelhantes, mas especificamente em Ciudad Juárez, no México. A cidade é considerada a mais violenta do mundo, e a jornalista mantém um blog independentesobre as histórias que descobre no local. “Eu sou a única jornalista internacional em Ciudad Juárez”, afirma Torrea.

O local é habitado majoritariamente por operários das chamadas industrias maquiladoras – empresas estrangeiras que buscam mão-de-obra barata no México – que ganham 40 dólares por semana. “Muitos jovens são consumidores de drogas e, para bancar este consumo, trabalham para os cartéis”, o que levou a uma grande militarização do lugar.

A repórter conta que “a partir das 21h as casas estão todas vazias, vira somente uma cidade com tanques militares”. No entanto, se sente o perigo por todas as partes. Antes do governo do atual presidente, Felipe Calderón, Juárez era uma cidade com muitos restaurantes, teatros, show e agora “os únicos lugares em que encontramos pessoas são os cemitérios. Se antes existia perigo para mulheres pobres e bonitas, agora o perigo se democratizou”.

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O desafio de lidar com traumas em coberturas de violência

30 jul

Texto: Wilheim Rodrigues – (2º ano ECA-USP)/ Foto: Germano Assad

Palestrantes Bruce Shapiro e Guilherme Portanova

Palestrantes Bruce Shapiro e Guilherme Portanova

“Eu estava na padaria quando fui capturado. Tudo aconteceu ao longo de 42 horas, 3 cativeiros e duas horas e meia de negociação”, recordou o jornalista investigativo Guilherme Portanova. Sua fala fez parte da palestra intitulada Como lidar com experiências traumáticas em coberturas de violência, da qual também participaram Marcelo Moreira, vice-presidente da Abraji, e Bruce Shapiro, diretor-executivo do Dart Center for Journalism and Trauma nos Estados Unidos.

Portanova foi sequestrado em 12 de agosto de 2006 em ação atribuída à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e mantido em cativeiro até que a Rede Globo de televisão aceitasse exibir uma gravação dos criminosos com demandas e denúncias de abusos no sistema penitenciário. O repórter afirma que o mais importante ao negociar sua libertação foi conhecer os próprios limites: “Quando se está diante da morte você descobre as coisas com as quais não pode lidar. Aceitaria morrer, mas não suportaria sofrer violência sexual ou ter uma morte lenta”. Com tal concepção em mente, Portanova procurou manter-se calmo e  negociou com seus sequestradores a própria libertação. Pediu, no entanto, para “morrer com um capuz e uma bala na cabeça” caso as negociações falhassem.

Ao ouvir os relatos de Portanova, o norte-americano Shapiro disse: “Entendo pelo que você  passou, Guilherme. Enquanto cobria ao vivo protestos sobre a pena de morte, eu fui esfaqueado por um homem descontrolado”. Shapiro começou a estudar a Síndrome do Estresse Pós Traumático (PTSD, em inglês) por causa de incidentes dessa natureza. Junto com psicólogos e psiquiatras, decidiu ajudar profissionais que sofreram violência a superar o ocorrido e retomar suas atividades habituais: “É comum que as vítimas queiram se isolar, fiquem nervosas e mudem abruptamente. A violência transforma as pessoas. Precisamos de auxílio para superar isso”, disse.

“Mas por que mesmo os jornalistas que não sofreram diretamente devem discutir traumas? É simples. Porque queremos entender as vítimas que estamos reportando”, afirma Shapiro. Ele acredita que a melhor maneira de produzir conteúdos jornalísticos eficientes e superar traumas pessoais é entender como as vítimas se sentem, ser resilientes, ou seja, superar as adversidades e vencer os desafios de coberturas de risco. “Não podemos pensar que jornalismo ‘é assim mesmo’ e estamos perdidos. Temos de admitir nossos limites e lutar para sermos pessoas e profissionais melhores, convencendo as empresas de comunicação a entrar no debate”.

Nesse momento, o mediador Marcelo Moreira retomou a discussão da experiência de Portanova. “É importante compreender que existiu uma situação inédita para a Rede Globo. Havia a necessidade de proteger o jornalista sem causar danos à sociedade e foram consultados especialistas no mundo inteiro antes de se tomar uma decisão”, afirma.

Perguntas da plateia

Uma das questões trazidas pelos presentes foi sobre como o jornalista deve agir ao entrevistar vítimas de tragédias. Shapiro respondeu: “Como você desejaria que sua irmã fosse entrevistada? É assim que deve agir”.

Outra pergunta envolvia limites, até  onde o estresse é responsável por atrapalhar a produção de um repórter. Também foi Shapiro que respondeu: “Especialistas diferenciam o estresse comum do estresse extraordinário. Esse último é o que nos preocupa e pode impedir grandes jornalistas de continuarem trabalhar”.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome dos palestrantes para visualizar os currículos:

Como lidar com experiências traumáticas em coberturas de violência

Guilherme Portanovaguilherme.portanova@tvglobo.com.br

Bruce Shapirobruce.shapiro@dartcenter.org

Marcelo Moreiramarcelo.moreira@tvglobo.com.br

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.