Lentidão e protecionismo da Justiça beneficiam o crime organizado no país

31 jul

Texto: Thiago Fuzihara Crepaldi (4˚ ano – Cásper Líbero) / Foto:Divulgação

Silvio de Oliveira, Procurador da República em São Paulo que se dedica ao combate de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e de lavagem de capitais, fez críticas ao sistema judicial brasileiro, que, segundo ele, precisa ser mais ágil. “Muitos crimes, pela lentidão do tribunal, acabam prescrevendo. Com a prescrição a pena de menores de 21 anos e maiores de 70 cai pela metade. Os canalhas também envelhecem”, disse, em tom de indignação. Ele também acha que deve acontecer uma filtragem maior de processos que sobem para instâncias superiores. De acordo com ele, 221 mil ações foram julgadas pelos 11 ministros do STF no ano passado. “Se eles trabalharam 10 horas por dia, isso significa que eles assinaram uma petição a cada 14 minutos. Ora, em 15 minutos não se consegue nem ler uma petição inteira”, provando que grande parte do trabalho é conduzido pelos assessores dos 11 ministros.

Rubens Valente começou sua carreira em 89, na imprensa de Campo Grande, MS, aos 19 anos, cobrindo crime de rua.

Palestrantes Rubens Valente e Silvio de Oliveira

Palestrantes Rubens Valente e Silvio de Oliveira

Interessou-se por perícia criminal. Depois dedicou-se à cobertura indígena, chegando a conhecer 35 tribos espalhadas por todo o país. Foi por eles que Valente começou a cobrir casos de corrupção. “Foi nessa época que percebi que os maiores problemas dos índios decorriam da corrupção do sistema público”. Cobriu, desde então, 15 operações da Polícia Federal, como a que resultou na CPI dos Correios, a operação Satiagraha, Anaconda e outras mais. É repórter de Brasil na Folha de S.Paulo. Ao longo dos 20 anos de experiência jornalística, Valente desenvolveu seus próprios métodos de investigação, que revelou nessa mesa do último dia de Congresso

Disse que é preciso manter vínculos com suas fontes. “Almoçar com elas, ligar para elas”. Como um jornalista tradicional, acredita que o computador deve ficar na fase final da apuração. O contato pessoal deve ser priorizado. Nesse meio ninguém é ingênuo e “se alguém revela uma informação valiosa, é bem possível que eu vá atrás e publique a história”. Contudo, ele alertou que nessa área é comum que o jornalista receba informações falsas, de concorrentes empresarias, inimigos políticos. “Dossiês fraudados são comuns. É preciso de cautela.”, contou o jornalista que uma vez por mês vai a audiências depor sobre suas investigações. Para ele não se permite muitos rodeios de linguagem, “quanto mais conciso, melhor”. “Um texto simples, não é um texto pobre. Se for preciso colocar um termo técnico, coloque-o, assim não se faz um jornalismo superficial”, sustentou.

Elogiou o espaço que os jornais têm dado à cobertura do crime organizado, mas criticou a falta de tempo para apuração, que é fundamental para uma reportagem bem feita. “O leitor também gosta desse tipo de notícia. 92% dos leitores de política querem saber das irregularidades que os políticos cometem. Cabe a nós ir atrás disso”, disse.

A dificuldade que tem enfrentado nas suas apurações é com relação ao protecionismo que o sistema judiciário tem dado a suspeitos. “Antes, os casos corriam em segredo de justiça para preservar vítimas de estupro etc.; agora, políticos corruptos, homicidas, serial killers, megaempresários são beneficiados pelo segredo. Sigilo eleitoral, para mim, é um absurdo”, desabafou.

Clique no nome da palestra para fazer o download da apresentação, e no nome do(s) palestrante(s) para visualizar o(s) currículo(s):

O Combate ao crime organizado no Brasil

Rubens Valente

Silvio de Oliveira

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo é uma realização da Abraji e da Universidade Anhembi Morumbi, com o patrocínio de Claro e Tetrapak, o apoio do Centro Cultural da Espanha em São Paulo, do Knight Center for Journalism in the Americas, do Open Society Institute, da Ogilvy, do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo e a parceria do Fórum de Acesso a Informações Públicas, do Centre for Investigative Journalism , da UNESCO e da OBORÉ.
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